sexta-feira, 29 de maio de 2020

Dia 76, sexta-feira, 29 de Maio

Por mais que queiramos, nada ficou igual, e nada de dizer que está tudo bem, pois não é essa a realidade de agora, e temo que não será nunca mais, tomando como referência a nossa vida antes do aparecimento deste vírus. O dia começou com a imitação da rotina de fim de semana, de antigamente: ir levar o equipamento da musica ao restaurante, para depois regressar a casa, e partir de bicicleta para o escritório, onde tratei de dar avanço na papelada.
Já é tempo de fazer algum balanço deste período que durou dois meses e meio, com algumas curiosidades:
- li dois livros e meio, de autores brasileiros.
- fiz 520 Km de bicicleta na rua, e 56 Km na bicicleta de casa.
- publiquei 98 musicas gravadas no estúdio,, e deixei umas 20 por publicar.
- vi dezenas de filmes no Netflix
- fiquei cada vez mais adepto de escutar a Accuradio
- publiquei 10 grupos de fotos no blogue das fotografias
- publiquei e geri diariamente as paginas de 3 restaurantes
- publiquei pontualmente na pagina da loja
- geri parte dos e-mails da loja
- fui a Verdun

Não poderei dizer que não estive activo. Na realidade confirmei que tenho de exercitar sempre as pernas, sob pena de enferrujar, se não o fizer.

A noite no restaurante foi fraca como se esperava, com perto de vinte clientes, e algumas refeições para fora. Nem toquei, aproveitando para colocar em dia o trabalho de escritório. Subindo à sala noto as dificuldades de adaptação à nova realidade que nos diz que não está tudo bem, e se nos esquecemos por momentos, as máscaras, o gel desinfectante, os avisos, as mesas vazias de pratos, copos e talheres, os cumprimentos com cotovelo, vêm lembrar-nos da nova realidade.

dia 75, quinta-feira, 28 de Maio

Se não existisse matéria para falar deste ultimo dia de confinamento, o ponto a salientar, foi o regresso à possibilidade de eu ganhar algum dinheiro extra, fazendo trabalhos com os quais me identifico. Afinal o potencial cliente para que eu lhe fizesse uma pàgina no Facebook apareceu, e depois de acertarmos um acordo verbal, fui remunerado, o que me permitiu um feliz regresso ao Banco, e ao saboroso acto de efectuar um deposito.
Mas o dia teve muito mais, foi o dia antes da abertura, e tudo andava numa azafona no restaurante, tanto no piso do restaurante, como na cave. Eram as mercadorias alimentares a chegar, espalhadas à espera de serem arrumadas, os artefactos ligados à prevenção e higiene, a arrumação da sala, tentando cumprir as normas legais, a execução de papeis a afixar, também segundo a lei, e o nervoso miudinho que antecede o dia final do condicionamento, que ditará, assim espero, o final destes relatos que provavelmente apenas eu lerei, para recordar tempos em que tudo mudou, com grande possibilidade de se tornar definitivo.
O patrão anda murcho, calmo, expectante, quem sabe por via também da doença que ainda não lhe descobriram.
Regressando a Audun, depois de ir ao Banco, fui ao Carrefour, tratar de comprar um bom Cremant , e um peixinho para grelhar, e de certa forma festejar.
A tarde foi agitada, com o trabalho de publicações dos restaurantes, mails da loja, criação do novo cliente, e preparação do dia seguinte.

terça-feira, 26 de maio de 2020

dia 74, quarta-feira, 27 de Maio

O bom tempo mantém-se, os 20 graus convidam à roupa de verão, mas de bicicleta não arrisco no excessivo entusiasmo de sair com pouca roupa, pois já fui apanhado desprevenido, e se nunca convém apanhar uma gripe, nesta altura muito menos. O trajecto foi até ao restaurante que agora em fase de preparação tem uma série de assuntos para ir tratando. Noto que o pessoal anda ansioso por começar no activo, e aparentemente todos estamos solidários com o patrão. Depois da manhã arrumada, foi tempo de voltar e almoçar o resto da saborosa muqueca, do jantar do dia 73, e mais saboroso foi verificar que o ordenado de Abril jà foi depositado. Mais um motivo para que eu, e todos os meus colegas façamos todos os possíveis para o regresso ao sucesso do restaurante, mesmo atendendo às novas normas.
Este dia ficou de todo marcado, pela entrada do ordenado e também pelo vislumbre de um possível regresso à normalidade, também esta, a possível, pois basta imaginar uma sala que antes estava a abarrotar, com mesas praticamente coladas umas às outras, e a partir de agora por tempo indefinido, com as mesmas mesas, espaçadas como se fossem ilhas. Mais uma vez se questiona a dualidade de critérios: no supermercado posso estar a centímetros de outra pessoa, desde que sejamos ambos irresponsáveis, e no restaurante, estando sentado, tenho de observar distância, para não falar de transportes públicos em hora de ponta, ou das regras aplicadas aos voos.
O restante do dia 74, foi pautado pela rotina habitual, e de uma grelhada na varanda.
Terminei de ver o filme da noite anterior.

dia 73, terça-feira, 26 de Maio

Ao fim de tantos dias de incerteza, embora ainda existam muitas, algumas duvidas foram dissipadas neste dia, que começou como habitualmente na ida para o restaurante e quando já estava perto, liga-me o patrão a perguntar se eu estava a chegar. Boa nova. Ele já estava à minha espera, o que queria dizer que para além de estar no activo, queria trabalhar. Cheguei. Achei-o com aquele aspecto de convalescente, mas em parte mais sereno e menos inchado. Penso que de momento não bebe e de resto passou doze dias internado. Descemos ao escritório, e entre varias tarefas em simultâneo (sinal de que ele voltou ao activo) autorizou-me a anunciar a abertura dos restaurantes, bem como me deu uma explicação convincente para o atraso no pagamento dos ordenados de Abril. Revi algum pessoal, e aparentemente todos estamos desejosos pelo retomar do trabalho, mas ao mesmo tempo reticentes quanto à aplicação das normas de higiene e segurança impostas pelo governo.
Depois do almoço fui de carro a Foetz, a trabalho, mas soube bem todo este retomar de "normalidade".
Reparti a tarde por tarefas de restaurantes, mails da loja, tocar, gravar, caminhar (pouco), terminar o "Blade Runner" **, e fazer uma bela muqueca de frango, cujo molho foi excelentemente apurado, modéstia aparte, acompanhado de um belo tinto francês.
Ao serão comecei o filme "Sem identidade" com o Liam Neeson, um actor que gosto bastante.


dia 72, segunda-feira, 25 de Maio



Ainda com algumas nuvens no céu, não havia vislumbre de chuva, e aparentemente, repôs-se o bom tempo. Fui a Esch de bicicleta, para missão de ver correio, tratar documentos, e na esperança de ver movimento no restaurante, e de encontrar o meu patrão. Mas apenas a missão foi cumprida, pois tratei do correio e pouco mais, e quanto a movimento e patrão, nada. O facto de ele não aparecer no escritório desde que adoeceu, prenuncia que não deve estar recuperado. Feitas as obrigações regressei de imediato a Audun, na expectativa das noticias divulgadas a meio da tarde pelo primeiro ministro do Luxemburgo, a respeito do funcionamento de algumas áreas de actividade fechadas, com particular interesse para os restaurantes.E apesar das restrições, foi dada a boa noticia, que até surpreendeu, da permissão de abertura a partir de dia 29 de Maio. Depressa comecei a ver publicações no Facebook, de alguns restaurantes a anunciar a sua abertura, e até pensei receber uma chamada do meu patrão a pedir-me para fazer o anuncio, mas nada veio, e a minha apreensão quanto ao estado de saúde e de planos de futuro para os restaurantes da parte dele, aumentaram. Fui deitar-me a pensar que se no dia 73 nada acontecesse, algo de grave se passaria.

domingo, 24 de maio de 2020

dia 70, domingo, 24 de Maio

Embora existam muitas incertezas quanto ao futuro, na analise tão isenta quanto consigo, ou penso fazer, direi que a minha situação futura está hoje com mais perspectivas de equilíbrio, mesmo que ténue, do que, no período da crise pela qual passei, principalmente entre 2011 e 2015. Mas no dia 70 acordei um bocado em baixo, dada esta demora em clarificar e definir "modus operandis", pois na verdade ninguém sabe. Nem quem supostamente devia saber: os que mandam. Colocando-me no papel do meu patrão, e conhecendo a sua forma de pensar, tenho algumas reticências quanto à manutenção dos restaurantes, dado que os moldes em que estes (e todos) operavam, não são mais possíveis de praticar. A opção é ganhar fôlego para mais uns dias de espera e esperar que não seja necessário criar um plano B.
Como terapia, enchi-me de coragem e pedalei até ao local ao qual chamo Gália. Um local de difícil acesso, de peregrinação religiosa, e de uma natureza envolvente indescritível. Ali estive quando sérios problemas financeiros assolavam a loja, e ali estive, no dia 70. E fez-me bem. Aliviou, e mostrou-me o quanto as minhas pernas vão fraquejando. Tenho de contornar mais este problema.
A restante parte da manhã andou em volta das fotos e pequenos  filmes feitos neste duro mas saboroso passeio, e na tarefa de controlar os mails da loja.
Parte da tarde foi à volta de filmes que nem vale a pena mencionar, a fonte do Netflix está a esgotar-se, quanto a filmes que me agradam, mas também não me posso queixar, e o preço por ter cinema à disposição a qualquer hora, é maravilhoso. A outra parte foi o costume: mails e restaurantes, com uma pequena saída para caminhar, hábito que vou ver se mantenho.
O filme do serão, ficou inacabado: "Appolo 13", com o Tom Hanks.


sexta-feira, 22 de maio de 2020

dia 69, sábado, 23 de Maio


Dia de chuva, que serviu para lavar os carros, e as ruas daquele pólen amarelo que nesta época invade o ambiente. Como não tinha planos traçados, meti-me no carro e fui por Esch verificar correio, e subi a Belval para umas pequenas compras. As pessoas parecem agora que adoptaram, até porque é obrigatório, o uso da máscara. Esperemos que este hábito se mantenha, pois caso contrário temo que se volte ao confinamento, e nesse caso, as economias vão estourar, o que significa uma outra estirpe do Covid.
De regresso e com a continuidade da chuva, pouco houve a fazer até ao almoço, que foi uma bela posta de bacalhau, com grão, que me soube nostalgicamente ao meu país.
A tarde começou com um filme interessante sobre um psicopata, com a Angelina Jolie, "roubando vidas".***
Feitas as obrigações de restaurantes, loja, mails, ao jantar recebi um telefonema que talvez venha a dar frutos sobre um possível trabalho na área do web-design. Seria bom, motivador, e talvez abrisse uma porta para uma nova forma de rendimento.