quarta-feira, 6 de maio de 2020

dia 53, quinta-feira, 7 de Maio


Parecia mais um dia, em que supostamente nada acontece, para além das rotinas habituais. O único sinal de diferença parecia ser o facto de ter entregue o meu carro ao vizinho do lado, para que este, na oficina onde trabalha, fazer a revisão necessária, já combinada. Com a repetição do mesmo estado de clima, de sol, com perto de 16 graus, e uma vez que o patrão não me chamou a Esch, iniciei a minha marcha nos caminhos que a bicicleta já conhece, cumprimentando as pessoas do costume.
No regresso, ao me dirigir ao prédio onde moro, avisto a mulher do meu vizinho mecânico, com cara de caso, e penso: ui, mais uma merda com o carro. Antes fosse. A noticia era a do falecimento do meu vizinho, com quem estivera a falar na tarde do dia anterior. Depois de falar comigo, pegou na sua Harley, e foi dar uma pequena volta pelas redondezas. E morreu. Aparentemente, a causa foi um ataque cardíaco. Perante certas noticias do desaparecimento de alguém, a nossa reacção é a de que não pode ser, que deve ser engano, que estamos num sonho, mas a realidade tem a força descomunal de ser o que é: real. E assim, ficamos sem o melhor vizinho que alguém pode ter. Provavelmente, tirando a mulher dele, fui a ultima pessoa com quem falou, perguntando-me se nesse dia eu não iria cantar, ao que lhe respondi que não, que seria no dia seguinte. Pergunto-me, se eu tivesse ido cantar, ele não sairia na moto? Ficaria por ali a ouvir, como tantas vezes fez? A minha avó dizia que não fugimos ao destino. Por isso certamente, que o meu vizinho Yves morreria de igual modo. A ouvir as minhas musicas, em vez de ter morrido em cima da Harley. Também dizia a minha avó, que não somos nada. Num momento estamos, e no seguinte, deixamos de estar.
Claro que o resto do dia foi pautado por esta tragédia. Fui-me dedicando à ajuda na loja a aos restaurantes. Houveram conversas de vizinhos sobre o sucedido. Ao fim do dia a viúva e uma das filhas, informaram em que local o corpo iria ficar, dando mais algumas informações sobre o processo de funeral, quando foram ao quintal traseiro regar as plantas. Comovi-me logo que encarei a senhora, é-me difícil encarar aquele quintal sem a presença do Yves.
A única coisa boa no fim de tarde, foi o regresso do meu carro, afinadinho e de filtros novos. Creio que foi um bom investimento preventivo, para além de ter descoberto no vizinho do lado um excelente e dedicado mecânico.

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