sexta-feira, 29 de maio de 2020

Dia 76, sexta-feira, 29 de Maio

Por mais que queiramos, nada ficou igual, e nada de dizer que está tudo bem, pois não é essa a realidade de agora, e temo que não será nunca mais, tomando como referência a nossa vida antes do aparecimento deste vírus. O dia começou com a imitação da rotina de fim de semana, de antigamente: ir levar o equipamento da musica ao restaurante, para depois regressar a casa, e partir de bicicleta para o escritório, onde tratei de dar avanço na papelada.
Já é tempo de fazer algum balanço deste período que durou dois meses e meio, com algumas curiosidades:
- li dois livros e meio, de autores brasileiros.
- fiz 520 Km de bicicleta na rua, e 56 Km na bicicleta de casa.
- publiquei 98 musicas gravadas no estúdio,, e deixei umas 20 por publicar.
- vi dezenas de filmes no Netflix
- fiquei cada vez mais adepto de escutar a Accuradio
- publiquei 10 grupos de fotos no blogue das fotografias
- publiquei e geri diariamente as paginas de 3 restaurantes
- publiquei pontualmente na pagina da loja
- geri parte dos e-mails da loja
- fui a Verdun

Não poderei dizer que não estive activo. Na realidade confirmei que tenho de exercitar sempre as pernas, sob pena de enferrujar, se não o fizer.

A noite no restaurante foi fraca como se esperava, com perto de vinte clientes, e algumas refeições para fora. Nem toquei, aproveitando para colocar em dia o trabalho de escritório. Subindo à sala noto as dificuldades de adaptação à nova realidade que nos diz que não está tudo bem, e se nos esquecemos por momentos, as máscaras, o gel desinfectante, os avisos, as mesas vazias de pratos, copos e talheres, os cumprimentos com cotovelo, vêm lembrar-nos da nova realidade.

dia 75, quinta-feira, 28 de Maio

Se não existisse matéria para falar deste ultimo dia de confinamento, o ponto a salientar, foi o regresso à possibilidade de eu ganhar algum dinheiro extra, fazendo trabalhos com os quais me identifico. Afinal o potencial cliente para que eu lhe fizesse uma pàgina no Facebook apareceu, e depois de acertarmos um acordo verbal, fui remunerado, o que me permitiu um feliz regresso ao Banco, e ao saboroso acto de efectuar um deposito.
Mas o dia teve muito mais, foi o dia antes da abertura, e tudo andava numa azafona no restaurante, tanto no piso do restaurante, como na cave. Eram as mercadorias alimentares a chegar, espalhadas à espera de serem arrumadas, os artefactos ligados à prevenção e higiene, a arrumação da sala, tentando cumprir as normas legais, a execução de papeis a afixar, também segundo a lei, e o nervoso miudinho que antecede o dia final do condicionamento, que ditará, assim espero, o final destes relatos que provavelmente apenas eu lerei, para recordar tempos em que tudo mudou, com grande possibilidade de se tornar definitivo.
O patrão anda murcho, calmo, expectante, quem sabe por via também da doença que ainda não lhe descobriram.
Regressando a Audun, depois de ir ao Banco, fui ao Carrefour, tratar de comprar um bom Cremant , e um peixinho para grelhar, e de certa forma festejar.
A tarde foi agitada, com o trabalho de publicações dos restaurantes, mails da loja, criação do novo cliente, e preparação do dia seguinte.

terça-feira, 26 de maio de 2020

dia 74, quarta-feira, 27 de Maio

O bom tempo mantém-se, os 20 graus convidam à roupa de verão, mas de bicicleta não arrisco no excessivo entusiasmo de sair com pouca roupa, pois já fui apanhado desprevenido, e se nunca convém apanhar uma gripe, nesta altura muito menos. O trajecto foi até ao restaurante que agora em fase de preparação tem uma série de assuntos para ir tratando. Noto que o pessoal anda ansioso por começar no activo, e aparentemente todos estamos solidários com o patrão. Depois da manhã arrumada, foi tempo de voltar e almoçar o resto da saborosa muqueca, do jantar do dia 73, e mais saboroso foi verificar que o ordenado de Abril jà foi depositado. Mais um motivo para que eu, e todos os meus colegas façamos todos os possíveis para o regresso ao sucesso do restaurante, mesmo atendendo às novas normas.
Este dia ficou de todo marcado, pela entrada do ordenado e também pelo vislumbre de um possível regresso à normalidade, também esta, a possível, pois basta imaginar uma sala que antes estava a abarrotar, com mesas praticamente coladas umas às outras, e a partir de agora por tempo indefinido, com as mesmas mesas, espaçadas como se fossem ilhas. Mais uma vez se questiona a dualidade de critérios: no supermercado posso estar a centímetros de outra pessoa, desde que sejamos ambos irresponsáveis, e no restaurante, estando sentado, tenho de observar distância, para não falar de transportes públicos em hora de ponta, ou das regras aplicadas aos voos.
O restante do dia 74, foi pautado pela rotina habitual, e de uma grelhada na varanda.
Terminei de ver o filme da noite anterior.

dia 73, terça-feira, 26 de Maio

Ao fim de tantos dias de incerteza, embora ainda existam muitas, algumas duvidas foram dissipadas neste dia, que começou como habitualmente na ida para o restaurante e quando já estava perto, liga-me o patrão a perguntar se eu estava a chegar. Boa nova. Ele já estava à minha espera, o que queria dizer que para além de estar no activo, queria trabalhar. Cheguei. Achei-o com aquele aspecto de convalescente, mas em parte mais sereno e menos inchado. Penso que de momento não bebe e de resto passou doze dias internado. Descemos ao escritório, e entre varias tarefas em simultâneo (sinal de que ele voltou ao activo) autorizou-me a anunciar a abertura dos restaurantes, bem como me deu uma explicação convincente para o atraso no pagamento dos ordenados de Abril. Revi algum pessoal, e aparentemente todos estamos desejosos pelo retomar do trabalho, mas ao mesmo tempo reticentes quanto à aplicação das normas de higiene e segurança impostas pelo governo.
Depois do almoço fui de carro a Foetz, a trabalho, mas soube bem todo este retomar de "normalidade".
Reparti a tarde por tarefas de restaurantes, mails da loja, tocar, gravar, caminhar (pouco), terminar o "Blade Runner" **, e fazer uma bela muqueca de frango, cujo molho foi excelentemente apurado, modéstia aparte, acompanhado de um belo tinto francês.
Ao serão comecei o filme "Sem identidade" com o Liam Neeson, um actor que gosto bastante.


dia 72, segunda-feira, 25 de Maio



Ainda com algumas nuvens no céu, não havia vislumbre de chuva, e aparentemente, repôs-se o bom tempo. Fui a Esch de bicicleta, para missão de ver correio, tratar documentos, e na esperança de ver movimento no restaurante, e de encontrar o meu patrão. Mas apenas a missão foi cumprida, pois tratei do correio e pouco mais, e quanto a movimento e patrão, nada. O facto de ele não aparecer no escritório desde que adoeceu, prenuncia que não deve estar recuperado. Feitas as obrigações regressei de imediato a Audun, na expectativa das noticias divulgadas a meio da tarde pelo primeiro ministro do Luxemburgo, a respeito do funcionamento de algumas áreas de actividade fechadas, com particular interesse para os restaurantes.E apesar das restrições, foi dada a boa noticia, que até surpreendeu, da permissão de abertura a partir de dia 29 de Maio. Depressa comecei a ver publicações no Facebook, de alguns restaurantes a anunciar a sua abertura, e até pensei receber uma chamada do meu patrão a pedir-me para fazer o anuncio, mas nada veio, e a minha apreensão quanto ao estado de saúde e de planos de futuro para os restaurantes da parte dele, aumentaram. Fui deitar-me a pensar que se no dia 73 nada acontecesse, algo de grave se passaria.

domingo, 24 de maio de 2020

dia 70, domingo, 24 de Maio

Embora existam muitas incertezas quanto ao futuro, na analise tão isenta quanto consigo, ou penso fazer, direi que a minha situação futura está hoje com mais perspectivas de equilíbrio, mesmo que ténue, do que, no período da crise pela qual passei, principalmente entre 2011 e 2015. Mas no dia 70 acordei um bocado em baixo, dada esta demora em clarificar e definir "modus operandis", pois na verdade ninguém sabe. Nem quem supostamente devia saber: os que mandam. Colocando-me no papel do meu patrão, e conhecendo a sua forma de pensar, tenho algumas reticências quanto à manutenção dos restaurantes, dado que os moldes em que estes (e todos) operavam, não são mais possíveis de praticar. A opção é ganhar fôlego para mais uns dias de espera e esperar que não seja necessário criar um plano B.
Como terapia, enchi-me de coragem e pedalei até ao local ao qual chamo Gália. Um local de difícil acesso, de peregrinação religiosa, e de uma natureza envolvente indescritível. Ali estive quando sérios problemas financeiros assolavam a loja, e ali estive, no dia 70. E fez-me bem. Aliviou, e mostrou-me o quanto as minhas pernas vão fraquejando. Tenho de contornar mais este problema.
A restante parte da manhã andou em volta das fotos e pequenos  filmes feitos neste duro mas saboroso passeio, e na tarefa de controlar os mails da loja.
Parte da tarde foi à volta de filmes que nem vale a pena mencionar, a fonte do Netflix está a esgotar-se, quanto a filmes que me agradam, mas também não me posso queixar, e o preço por ter cinema à disposição a qualquer hora, é maravilhoso. A outra parte foi o costume: mails e restaurantes, com uma pequena saída para caminhar, hábito que vou ver se mantenho.
O filme do serão, ficou inacabado: "Appolo 13", com o Tom Hanks.


sexta-feira, 22 de maio de 2020

dia 69, sábado, 23 de Maio


Dia de chuva, que serviu para lavar os carros, e as ruas daquele pólen amarelo que nesta época invade o ambiente. Como não tinha planos traçados, meti-me no carro e fui por Esch verificar correio, e subi a Belval para umas pequenas compras. As pessoas parecem agora que adoptaram, até porque é obrigatório, o uso da máscara. Esperemos que este hábito se mantenha, pois caso contrário temo que se volte ao confinamento, e nesse caso, as economias vão estourar, o que significa uma outra estirpe do Covid.
De regresso e com a continuidade da chuva, pouco houve a fazer até ao almoço, que foi uma bela posta de bacalhau, com grão, que me soube nostalgicamente ao meu país.
A tarde começou com um filme interessante sobre um psicopata, com a Angelina Jolie, "roubando vidas".***
Feitas as obrigações de restaurantes, loja, mails, ao jantar recebi um telefonema que talvez venha a dar frutos sobre um possível trabalho na área do web-design. Seria bom, motivador, e talvez abrisse uma porta para uma nova forma de rendimento.

dia 68, sexta-feira, 22 de Maio


Este foi talvez dos dias iguais aos dias iguais, daqueles que teve um sabor insosso. Primeiro porque foi um dia de ressaca do vinho bebido em excesso na véspera, segundo porque nada fiz de especial, para além de acabar de ver o filme "em parte incerta" ****, ter ido ao escritório tratar da papelada, onde confirmei que os ordenados de todo o pessoal do restaurante onde trabalho ainda não receberam, e no final do dia ter feito uma bela combinação com uma paella congelada, e alguns toques especiais. Ficou saborosa.
O serão foi um filme chato que me despertou a atenção por ter como actor principal, Robin Williams, de nome "Amor além da vida". **

Aparte descrever o dia 68, publico neste dia o tema musical numero 87. Sem me aperceber já são perto de 100 musicas que gravei, fora as que apenas toquei por diversão. Espero que em breve, venha a terminar este ciclo de "Musica em Casa".

A minha musica José Cid
A toi Joe Dassin
Aconchego Elba Ramalho
All of me Frank Sinatra
Amar pelos dois Salvador Sobral
Amigo Roberto Carlos
Another brick in the wall Pink Floyd
Autumn Leaves Nat King Cole
Beatles Meddley The Beatles
Behind Blue eyes The Who
Bella Ciao popular italiano
Black Magic Woman Santana
Breathe Pink Floyd
C.A.S.A. Meddley popular português
Can't get enough Bad Company
Canção do Mar Amalia Rodrigues
Cantigas do Maio José Afonso
Cavatina The Shadows
Chico fininho Rui Veloso
Cocaine J.J.Cale
Como dizia o poeta Vinicius de Morais
Corazon espinado Santana
Do Choupal até à Lapa José Afonso
Don't be cruel Elvis
Don't worry be happy Bobby McFerrin
Drive The Cars
E depois do adeus Paulo de Carvalho
Emoções Roberto Carlos
Et maintenent Gilbert Bacaud
Europa Santana
Father and son Cat Stevens
Fifh of firth Genesis
Fim do mês Xutos e Pontapés
Fragile Sting
Heroes David Bowie
Killing me softly Roberta Flack
I can see clearly now Jimmy Cliff
I don't know how to love him Yvonne Elliman
I've got you under my skin Frank Sinatra
Intervalo Perfume
Just a gigolo David Lee Roth
La camisa negra Juanez
Layla Eric Clapton
Lisboa, menina e moça Paulo de Carvalho
Losing my religion R.E.M.
Love me tender Elvis
Loucura Carlos do Carmo
Maria Bezegol
Menino do rio Caetano Veloso
Nem eu Gal Costa
New Your New York Frank Sinatra
Nini dos meus 15 anos Paulo de Carvalho
Nunca me esqueci de ti Rui Veloso
O pica do 7 Antonio Zambujo
Para os braços da minha mãe Pedro Abrunhosa
Parisienne walkways Gary Moore
Pedra filosofal Manuel Freire
Porto Côvo Rui Veloso
Porto sentido Rui Veloso
Postal dos correios Rio Grande
Pura inocência Polo Norte
Quem de nòs dois Ana Carolina
Rien de rien Johny Halliday
Rock around the clock Bill Haley
SAMBA PA TI Santana
Sei-te de cor Paulo Gonzo
Ser poeta Trovante
She Charles Aznavour
Sorry Tracy Chapman
Smoke on the water Deep Purple
Smooth Jazz (backing track)
Snow goose Camel
Sou como um rio Delfins
Tears in haeven Eric Clapton
Todo o tempo do mundo Rui Veloso
Tombe la neige Adamo
Tudo para Roberto Carlos
Você é linda Caetano Veloso
Walk on life Dire Straits
Walking by myself Gary Moore
What a wonderful world Louis Armstrong
Wish you were here Pink Floyd
Woman John Lennon
Wonderful tonight Eric Clapton
Yerterday The Beatles
Tyou got it Roy Orbison
Your song Elton John

dia 67, quinta-feira, 21 de Maio

E ao fim do sexagésimo sétimo dia ele viajou. Assim podia ser o titulo deste dia. Aproveitando o excelente clima primaveril e principalmente a possibilidade de me deslocar dentro da França, numa distância até 100 Km, rumei a Verdun, cidade onde já tinha estado em 2016, que dentro de si e nos arredores, guarda inúmeros monumentos e vestígios das duas Grandes Guerras do século XX. Não fossem as minhas pernas enferrujadas que me traem em caminhadas maiores, e principalmente em trajectos com subidas e degraus, e o passeio teria sido perfeito, mas mesmo assim deu para fazer algumas boas fotos, e conhecer mais um pedaço desta cidade carregada de Historia. Talvez regresse um dia, com a bicicleta atrelada ao carro.
No regresso, o meu GPS fez o favor de me mandar por caminhos secundários, porque decerto está desactualizado, e o resultado foi que demorei mais uma meia hora para chegar, tendo conhecido mais uma boa parte da Loraine.
A tarde foi mais do mesmo, com especial incidência no tratamento dos mails da loja, cujo volume está a aumentar, e também ao tratamento de edição das fotos feitas durante a manhã.
O serão foi à volta de um filme que terei que rever, pois bebi vinho branco em demasia, e o resultado foi total falta de concentração e sono.

dia 66, quarta-feira, 20 de Maio


Repete-se o dia, mais sol, mais azul, mais uma ida ao escritório, para deixar o correio em dia e o patrão actualizado. Um pouco menos de uma hora deu para tratar do que havia a tratar, e regressar a casa, com a habitual paragem no controle de fronteira.
Pouco há a dizer sobre este dia de quarta-feira que foi em quase tudo igual a tantos relatos nos posts dos dias anteriores pois não existe muita margem de manobra para trabalhos ou actividades, enquanto a situação actual se mantiver. Uma coisa boa, foi constatar que o meu vizinho conseguiu afinar em condições os travões da minha bicicleta.
A tarde deu para mais umas gravações, tratar dos restaurantes, aliás, com menos um, pois o de Portugal desde que abriu, deixou de me mandar os pratos, e a confirmar-se esta atitude, sem nada me dizerem, confirmo que não devemos oferecer-nos para ajudar, sem sermos requisitados. Fica assim mais esta lição.
O filme da noite foi "Alfa", uma bela história baseada na amizade entre o Homem e o Lobo ****

terça-feira, 19 de maio de 2020

dia 65, terça-feira, 19 de Maio

Clima e céu tirado a papel quimico dos dias anteriores<; <até nisto a rotina se afirma como se estvessemos condenados a repetir os dias até ao final da nossa existência.
Variando um pouco, fui de carro ao restaurante apenas para recolher o correio, e de caminho fiz umas compras no Carrefour, que agora jà não apresenta nenhum elemento de segurança na entrada. A manhã ainda rendeu para fazer perto de 8 Km de bicicleta, embora sem o à vontade no tempo de confinamento absoluto, pois o trânsito voltou ao normal.
Almoço leve na varanda, sem ouvir noticias. Por vezes é bom desligarmos um pouco e ficarmos a sos connosco, embora desde os tempos em que estava sozinho no Meco, me tivesse acostumado a gostar de estar sozinho. São temperos de momentos, por vezes gostamos de estar rodeados de pessoas, e em outras alturas, sozinhos.
De tarde foram as rotinas habituais, e um telefonema do patrão sobre um assunto de trabalho que eu jà resolvera. Foi bom falarmos, e creio que ele também gostou. Acredito que mesmo não admitindo ele toma atenção e avalia secretamente aquilo que digo.
O jantar constou da melhor carne de porco à alentejana que jà fiz. Apurei bem o molho, o coentro foi caseiro, e a carne filet mignon. Surpresa foi também o vinho, um branco francês comprado a preço de saldo: 1,66€ a garrafa.
Para o serão escolhi o filme "de olhos bem fechados", o ultimo filme realizado por      com a bela Nocole Kidman e 

segunda-feira, 18 de maio de 2020

dia 64, segunda-feira, 18 de Maio


Mais sol, mais céu azul no dia em que em Portugal começam a funcionar os restaurantes. Aqui começamos o confinamento mais cedo e vamos termina-lo mais tarde. Veremos a contabilidade no final.
Segui de bicicleta até ao escritório, para tratar dos poucos papeis pendentes, nos dois restaurantes. A única companhia que tenho tido ali dentro é o som da ACCURadio e o motor da enorme arca frigorífica que fica em frente ao escritório. Findo o trabalho regresso a Audun, e no local do costume lá estavam as autoridades no controle de quem entra na França.
Almocei uma Flammkucgen, uma espécie de pizza da Alsácia, com toque especial, juntado queijo Brie, Bacon, um ovo e oregãos.
Depois de almoço falei com a patroa que me informou que o patrão deveria ter alta nesta segunda-feira, e que por enquanto ainda não se sabe concretamente qual a doença que o afecta. Também me informou que por enquanto ainda não há ordenado. Não me preocupa o atraso, preocupa-me é se ele não vem.
Dividi a tarde pelas tarefas do costume, e depressa ela se passou, com um cair de tarde muito saboroso.
Quando me preparava para jantar recebi um sms da patroa, a informar-me que o marido tinha regressado ao lar. Veremos se ele toma mais cuidado com a saúde.
O serão passou-se a terminar o filme da véspera. ***

domingo, 17 de maio de 2020

dia 63, domingo, 17 de Maio

Mais um dia que acorda em tons de azul e sol esplendoroso, convidando ao ar livre. Como já estava nos meus planos, dirigi-me a Esch a fim do fotografar a exposição de rua sobre as relações entre o Luxemburgo e Portugal no período nazi, bem como sobre a figura e percurso de Aristides de Souza Mendes. Quando estava a fotografar um a um, os cartazes expostos, notei que um daqueles tugas que andam sempre a deambular por ali, me olhava com ar desconfiado, até se debruçar sobre os cartazes, que decerto ignorara até ali.
O regresso a Audun foi sem controle policial, e ainda deu para começar a editar as fotos, antes da hora de almoço.
A tarde, dividi-a entre mails, apoio a restaurantes, ver o meu vizinho afinar-me os travões da bicicleta, e mais uma sessão de estúdio, muito bem sucedida.
O jantar foi de grelhados, à varanda, com um cair de tarde tranquilo, ao som do canto das aves.
O filme escolhido foi " a época da inocência", do qual não vi nem um terço, devido ao ataque de sono que me mandou para a cama às dez da noite.

sábado, 16 de maio de 2020

dia 62, sábado, 16 de Maio

Em contraste com o clima que assola do meu país, que segundo os relatos, passou nas ultimas horas por trovoadas e cheias, o tempo nestas bandas continua de sol, e uns fofinhos 16 graus pela manhã.
Munido do equipamento e documentos necessários, fui a Esch, ver de havia correio, mas a caixa estava vazia. Como dizem os franceses: "pas de nouvelle, bonne nouvelle". Acima de tudo quando a "nouvelle" vem registada, nunca é coisa boa. Ainda hoje lambo as feridas dos tempos em que chegava o carteiro, e me dizia, tem aqui uma coisinha para assinar". Outro trauma que não me vai largar é o do dinheiro na conta, pois este mês a patroa pediu desculpa porque iria haver um atraso nos pagamentos, e por enquanto ainda não recebi. Confio neles, pois havendo outra intenção nem sequer diriam nada, mas enquanto não vir o dinheiro na conta, sei que vou andar em pulgas.
Porque não havia justificação, não desci ao escritório, e andei a vaguear por Esch, na certeza de que mais de 80% das pessoas com quem me cruzei não eram luxemburguesas, e a maioria deles era da raça tuga.
Durante o passeio deparei-me inesperadamente com uma exposição sobre temas relacionados com Portugal e o Luxemburgo no tempo da II Grande Guerra, e após o visionamento desta exposição de rua, pensei em ocupar parte da manhã de domingo a fotografar com a Nikon, toda a informação ali contida, para que, lhe possa dar o devido e merecido tratamento.
O almoço foi uma pizza de salmão, com ovo a cavalo, e optei por fazer mais umas gravações que correram muito bem. Até publiquei o tema "I"ve got you under my skin", e acho que me saiu bem.
Na minha terra a polémica do momento é sobre ir à praia, como se não houvessem cuidados e preparações de prevenção a ter de muito mais importância do que a ida à praia. Cada vez me convenço mais que temos tido sorte, e que de certa forma, somos tão indisciplinados como o Bolsonaro. Com o bom tempo a convidar ao passeio e ao mergulho, vai cair por terra a nossa imagem de bem comportados.
O filme da noite foi um regresso ao passado. Revi um filme dos anos 80: "Vidas em jogo", de 1984. **

quinta-feira, 14 de maio de 2020

dia 61, sexta-feira, 15 de Maio

Mais uma manhã de sol, a 14 graus, e uma rotina diferente. Foi o dia de ir levantar as máscaras disponibilizadas pelo governo luxemburguês. Na informação disponibilizada as instruções para levantamento eram claras: levar o documento fornecido e ir de carro, ao local mais próximo que no meu caso foi em Belval, num parque de estacionamento. A operação está a cargo dos militares que controlam o acesso ao parque e distribuem uma caixa com 50 mascaras, contra a entrega do papel. Um dos militares falava português.
De caminho fui buscar o correio ao restaurante e aproveitei para umas compras no centro comercial. Prevejo que a partir desta mudança, terei pouco apetite por vaguear nas lojas. Porque em algumas tenho de esperar na fila; porque não me sinto à vontade para ficar nas calmas às compras, pois existem pessoas em espera; porque a máscara incomoda, condiciona a respiração, que embacia os óculos; porque há menos dinheiro para gastar; porque há que repensar a necessidade e utilidade do que se vai comprar.
Como não fiz bicicleta de manhã, saí a meio da tarde para pouco menos de 9 Km. Tudo está a caminho de voltar à normalidade: o movimento de carros, de pessoas, crianças no parque, comércio aberto mostram a vila como sempre a conheci até 15 de Março. Agora, cabe em grande parte às pessoas respeitar as normas, e fazer por merecer este regresso à "vida".
Vi a minha vizinha, mulher do Yves, estava vestida de preto. Contou que a cremação foi bonita com musicas do Johnny Halliday e dos ACDC.
Jantei sardinhas assadas que me souberam muito bem. Foi o regresso possível às recordações de Portugal.
O filme, baseado em factos reais, foi enfadonho. Mias um relato de resistência aos nazis, desta vez na Holanda. **

quarta-feira, 13 de maio de 2020

dia 60, quinta-feira, 14 de Maio

Dia 60. Dois meses com um enorme "?" que se vai prolongar ou mesmo instalar desde que toda esta situação começou.
Uma das convicções que venho a desenvolver nestes dois últimos meses, é a de que algumas pessoas, grupo no qual me incluo vão reformular e ponderar as suas opções de consumo. Seja por menor rendimento, seja porque...............;
Amanheceu com sol, mas com vento a uns 9 graus que tive de enfrentar a caminho de Esch. Nos Correios, onde me dirigi primeiro, havia pouca afluência, e cedo me despachei para ir ao escritório tratar do expediente. Decidi passar por "scan" toda a correspondência e enviar para o meu patrão, que segundo sei, continua hospitalizado à espera de saber do que padece. Pelo menos fica inteirado e actualizado.
No regresso a Audun, não havia controlo de fronteira, e a novidade estava na caixa do correio: uma carta do Governo luxemburguês, a informar que dão 50 máscaras aos fronteiriços. 
Mais uma vez se comprova a prioridade que este pequeno país dá ao tema Saúde.
Depois de almoço, retomei a rotina de gravações no estúdio, dedicado a temas portugueses, e depois das cantorias, mais duas rotinas, as das publicações nos restaurantes, e as respostas aos mails das lojas. Continuo sem saber noticias sobre o estado de saúde do meu patrão.
Ao serão revi um filme cujo historia já esquecera: "Lendas de Paixão". *****


dia 59, quarta-feira, 13 de Maio

Em Novembro de 2019, iniciei, por receita médica, o processo de obter umas botas ortopédicas feitas à medida para melhor conforto no meu caminhar.
O acontecimento pessoal do dia, começou logo pelas 9 horas da manhã, com a comparência na loja Doppler, para dar continuidade aos moldes que servirão para a execução do meu primeiro calçado prótese desde há mais de 50 anos. Confesso que sinto um misto de emoção, ansiedade e conforto por poder usufruir deste apoio do SNS luxemburguês, pois pagar umas botas feitas sob medida, seria seguramente mais caro do que o que gastei recentemente com o meu carro. E segundo me informou aquele que penso seja um artífice destas próteses, deverei ter novo andar no dia 5 de Junho.
Depois deste "rendez-vous" fui ao escritório, mas pouco fiz, pois não haviam documentos para tratar.
No regresso, mais um controle policial à entrada de França.
A segunda parte do dia começou com uma pequena sesta, merecida, pois acordei cedo por causa das botas, e com o avanço da idade tudo nos é cobrado. Depois de umas tarefas de PC retornei ao estúdio,mas como senti que a minha vizinha esta por ali, por respeito, toquei e não cantei. Para além da consideração por eles, entendo que estou no país deles e por isso, devo ter cautela nas minhas condutas. E o resultado foi a gravação de alguns instrumentais. E por falar em país, creio que existem poucas chances de ir a Portugal em Julho. Vejo tudo muito parado, embora ainda falte um mês e meio para o voo.
Terminei o filme iniciado de véspera "Operação final" ****, e vi outro também agradável e igualmente baseado em acontecimentos verídicos "Victoria e Abdul". **** 

terça-feira, 12 de maio de 2020

dia 58, terça-feira, 12 de Maio

Alegrei-me com a volta do sol, embora o frio permaneça. Tentei saber alguma coisa sobre o estado do meu patrão, mas a consulta é durante a manhã. Decidi ir a Esch, com o documento de trabalho, aproveitando assim para verificar o correio do restaurante, e dar uma volta pela rua Alzette, e pelo parque.
Na rua Alzette, a massa humana era a normal dos dias normais, com a particularidade de cerca de 90% das pessoas usarem a máscara, e das lojas abertas, mas vazias de clientes.
No parque que agora está no apogeu da primavera, com os seus verdes envolventes, haviam poucas pessoas. Foi o primeiro regresso desde que começou a pandemia, e diria que escutei mais passarada nas árvores.
No regresso a casa, havia controle de fronteira. A França não abdica do controle de entradas e saídas.
Segundo a informação que tive, o meu vizinho Yves foi reduzido a cinzas, cerca das 14 horas deste dia.
A tarde foi dividida entre tarefas de computador, e o começo de mais um filme, desta vez em época pós II Guerra Mundial, que não terminei, mas estou a gostar muito.
Pelo que tentei saber o meu patrão está internado, em observação, sem saber ainda o que tem. Fiquei preocupado.



segunda-feira, 11 de maio de 2020

dia 57, segunda-feira, 11 de Maio


O primeiro dia em que oficialmente se vão desapertando algumas amarras de confinamento, na França poderei circular livremente até 100 km da minha residência, e como trabalho no Luxemburgo, posso atravessar a fronteira, munido do documento justificativo.
Com  a chuva constante e uns pouco convidativos 5 graus, não tive outra alternativa do que pegar no carro para ir ao escritório.
Em Esch o movimento de carros já é o normal dos dias pré-covid, pois todo o comércio abriu a partir deste dia, e por isso, acabaram-se os lugares de estacionamento à porta do restaurante.
Depois de beber uma saborosa "bica" dediquei-me à papelada e a meio da manhã, recebo um telefonema do meu patrão a dizer que estava no hospital para exames. Temo que seja algo prolongado, e se isso acontecer, veremos como será o futuro, e que trabalhos poderei ou não ter, por mais este percalço. O que fiz, foi avisar que irei ao escritório de 2 em 2 dias, e disponibilizar-me para o que seja preciso e esteja ao meu alcance.
O grande corte que levei no dinheiro que recebo mensalmente, leva-me a ter de tomar algumas medidas de contenção nas despesas para aplicação imediata, e uma das áreas em que tenho de poupar é na da alimentação, por isso o lema é gastar pouco sem prejuízo da saúde. Por isso o almoço foi de "restos". Ficou a barriga aconchegada, e não houve custos.
Ainda me dói, e continuará a doer, a falta do meu vizinho. Uma das coisas que mais gosto nesta casa é a varanda, pelo espaço que tem, e me permite ter os canteiros, grelhar, fazer refeições, ler, tocar viola, e saborear a calma paisagem de ver ali mesmo à minha frente. Era hábito também mirar de cima o quintal do Yves, sempre arrumadinho.
A tarde dividiu-se entre apoio aos restaurantes e à loja, e um filme que terminei ao serão, mais um caso verídico passado em plena época nazi, de produção checa: "The devil's mistress". ****

domingo, 10 de maio de 2020

dia 56, domingo, 10 de Maio

Apesar dos avisos de chuva, a manhã deu para cumprir a volta de 12 Km, com uma temperatura amena, mas com cara de que para depois de almoço as coisas iriam piorar, e o certo é que choveu, parece que se vai entrar no Outono em vez de caminhar para o Verão, como obriga o calendário.
E de facto a tarde convidou ao recato do sofá, e por isso dei conta de 3 filmes durante este domingo:
"A noiva do diabo", um filme sueco, interessante. ***
"A queda de Wall Street", muito didáctico, e que me relembrou aflições que tive desde 2002. ****
"18 presentes", italiano, fofinho, a puxar ao sentimento. **
No restante foi um dia muito igual aos outros dias iguais, mas como não tenho muita margem de manobra, hà que aguentar o passar dos dias.
Houve tempo para pegar na Fender para ir ensaiando o "tombe la neige" e tentar corrigir erros de execução e pronuncia, mesmo sabendo que o que contará no momento em que cantar, tudo será emoção, e apenas emoção.


sábado, 9 de maio de 2020

dia 55, sábado, 9 de Maio

O primeiro sábado sem sentir qualquer movimento no piso térreo aqui do prédio. Não que o Yves ou a mulher fizessem barulho, mas sempre se sentia a presença, principalmente dele, que andava sempre envolvido em alguma tarefa.
Amanheceu de chuva, mas mesmo assim atrevi-me a pedalar, num suposto dia feriado, mas com todo o comércio aberto em Audun. Não foram os pingos da chuva que me mandaram para casa, mas o aviso do restaurante, sobre um erro que cometi numa publicação, e tive de vir corrigir.
Avizinha-se o dia 11 de Maio, e portanto deverão ser retiradas algumas restrições, que confesso ainda não percebi bem, o que posso aliviar nesta rotina de dois meses. Por enquanto farei sempre a declaração de saída. Nunca se sabe.
O almoço foi a condizer com o dia meio outonal: bacalhau cozido, com grão, e ovo, adornado com salsa e cebola picada e um dente de alho.
Após o almoço terminei de ver "o crime do padre Amaro", cujo final denuncia a força da igreja e os seus podres encobertos. ****
Com o tempo a abrir um pouco, no final da tarde ainda deu para jardinar um pouco, e olhar o quintal do Yves, com os seus canteiros, vazio de pessoas.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

dia 54, sexta-feira, 8 de Maio

Começou um dia de manhã triste, em função da perda de uma pessoa. A pessoa que quase todos os dias marcava presença quando o dia raiava, fosse porque estava a limpar janelas, o chão, a cortar relva, a tratar dos lixos do condomínio, a mexer nas plantas, de volta das ferramentas, e que sempre me dizia alegremente, "bonjour, bonjour".
A primeira tarefa foi por isso, a de restar homenagem ao Yves, uma experiência que sempre me afecta é a de ir ao um velório. Este, ao contrário dos velórios que vi até aqui, e também porque fui pela manhã, e quem sabe porque estamos em confinamento, tinha apenas a viúva e as filhas. Ao entrar não consegui sequer aproximar-me do corpo que repousava na urna de pinho, despojada de qualquer adorno. No leitor de cd, passava o ídolo do Yves, o Johnny Halliday. Quando ganhei coragem fui olha-lo. Era um rosto sereno, de defunto, pálido, contrastando com a imagem que dele guardo em vida, de faces ruborizadas. Quando estava de saída, escrevi uma pequena dedicatória na tampa do caixão, que irá arder na próxima terça-feira, e ao despedir-me das filhas recebi o convite mais insólito em toda a minha vida de musico: o de cantar o tema "tombe la neige", na ocasião em serão depositadas as cinzas do Yves, no cemitério de Audun. Aceitei com honra e emoção. Veremos se me aguento a cantar a canção do inicio ao fim, e se não desabo num choro.
Depois destes momentos de muita emoção, regressei a casa para iniciar o trajecto de bicicleta, e confirmei o bom estado em ficou o meu carro. Creio ter o assunto da mecânica resolvido.
A mente e o corpo agradeceram os 12 Km ao pedal, com um sol maravilhoso.
O almoço foi na varanda, com a constante lembrança do meu vizinho, que por baixo, no seu quintal, me dizia sempre que os meus comeres cheiravam sempre bem. Agora, é o silêncio.
Na parte de tarde, retornei ao estúdio, gravando alguns temas mas apenas em acústico, para que o som não fosse alto.
Para preservar o gosto pela fotografia, fiz umas quantas fotos de plano grande às minhas ervas aromáticas.
Das noticias polémicas na minha terra, as novidades são as das bocas "Quaresma-André Ventura", e "Festa do Avante". Uma vergonha. Duas, aliás.
Ao serão comecei a ver uma versão do "Crime do Padre Amaro", passado na época actual, no México. Estou a gostar.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

dia 53, quinta-feira, 7 de Maio


Parecia mais um dia, em que supostamente nada acontece, para além das rotinas habituais. O único sinal de diferença parecia ser o facto de ter entregue o meu carro ao vizinho do lado, para que este, na oficina onde trabalha, fazer a revisão necessária, já combinada. Com a repetição do mesmo estado de clima, de sol, com perto de 16 graus, e uma vez que o patrão não me chamou a Esch, iniciei a minha marcha nos caminhos que a bicicleta já conhece, cumprimentando as pessoas do costume.
No regresso, ao me dirigir ao prédio onde moro, avisto a mulher do meu vizinho mecânico, com cara de caso, e penso: ui, mais uma merda com o carro. Antes fosse. A noticia era a do falecimento do meu vizinho, com quem estivera a falar na tarde do dia anterior. Depois de falar comigo, pegou na sua Harley, e foi dar uma pequena volta pelas redondezas. E morreu. Aparentemente, a causa foi um ataque cardíaco. Perante certas noticias do desaparecimento de alguém, a nossa reacção é a de que não pode ser, que deve ser engano, que estamos num sonho, mas a realidade tem a força descomunal de ser o que é: real. E assim, ficamos sem o melhor vizinho que alguém pode ter. Provavelmente, tirando a mulher dele, fui a ultima pessoa com quem falou, perguntando-me se nesse dia eu não iria cantar, ao que lhe respondi que não, que seria no dia seguinte. Pergunto-me, se eu tivesse ido cantar, ele não sairia na moto? Ficaria por ali a ouvir, como tantas vezes fez? A minha avó dizia que não fugimos ao destino. Por isso certamente, que o meu vizinho Yves morreria de igual modo. A ouvir as minhas musicas, em vez de ter morrido em cima da Harley. Também dizia a minha avó, que não somos nada. Num momento estamos, e no seguinte, deixamos de estar.
Claro que o resto do dia foi pautado por esta tragédia. Fui-me dedicando à ajuda na loja a aos restaurantes. Houveram conversas de vizinhos sobre o sucedido. Ao fim do dia a viúva e uma das filhas, informaram em que local o corpo iria ficar, dando mais algumas informações sobre o processo de funeral, quando foram ao quintal traseiro regar as plantas. Comovi-me logo que encarei a senhora, é-me difícil encarar aquele quintal sem a presença do Yves.
A única coisa boa no fim de tarde, foi o regresso do meu carro, afinadinho e de filtros novos. Creio que foi um bom investimento preventivo, para além de ter descoberto no vizinho do lado um excelente e dedicado mecânico.

dia 52, quarta-feira, 6 de Maio

Manhã de sol, mas fresca e em tons de azul, que convidam ao ar livre. Como tenho justificação de sair, é com prazer que rumo ao escritório em função de espera pelo patrão, que a meio da manhã me liga a comunicar que passou mal a noite e por isso a reunião fica sem efeito. De regresso a França, deparo-me com novo controle de fronteira. Os "gendarmes" não abrandam o bloqueio do território, e aqui declaro que assim devia ser sempre, pois o acordo de Schengen quanto a mim é demasiado permissivo, e por isso temos as máfias de leste a actuar impunemente nos mais diversos locais europeus. 
No regresso ao trabalho em casa, dei mais um empurrão ao apoio possível à loja, e este trabalho já vai dando alguns frutos.
Depois de almoço, troquei o estúdio pelo pedal e fiz mais 10 Km, a juntar aos Km da manhã. A barriga agradece.
No regresso do passeio, estive um pouco à conversa com o meu vizinho do rés-do-chão, sobre as primeiras "liberdades" que entrarão a partir de dia 11, em França.
O filme de fim de tarde e inicio de noite foi sobre o polémico "bispo" Edir Macedo, fundador da igreja universal do reino de Deus. A  primeira impressão com que fiquei é a de que o filme tenta branquear em parte a figura deste "bispo", mas como não terminei de ver tudo, apenas farei o juízo final... no fim.
O jantar foi um frango no forno com muito limão, cerveja, alho, banha, e uma abundante quantidade das ervas aromáticas da minha horta.
A noite caiu linda, como demonstra a foto.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

dia 51, terça-feira, 5 de Maio

Dia 51, de céu nublado, e uns 10  graus fresquinhos propícios a fazer-me à estrada na bicicleta, com a mochila necessária e habitual para sair de um país que se encontra ainda fechado, e entrar noutro que vai abrindo aos poucos mas que obriga ao uso de máscara. Aliás, cada vez se nota mais informação sobre informação que quanto a mim só tende a piorar o entendimento das pessoas. Ainda hoje a minha vizinha, francesa, me disse que a policia a informara de que é proibido fazer a hora a que temos direito por dia, de bicicleta, que apenas se pode usufruir deste passeio, a pé, ou acompanhado com cão, a pé.
Fui a Esch ao escritório, e nada de autoridades a controlar. Dei mais um avanço à papelada e regressei a França com caminho livre. Como neste período temos de estar atentos às oportunidades, vi que o Lidl não tinha fila de clientes, e por isso mal estacionei a bicicleta, fiz novo documento e peguei no carro, rumo à aventura que constitui ir ao supermercado, em busca das faltas e de mais uns Bordeaux. Uma vantagem de ir aos supermercados franceses é a de nos arriscarmos a comprar um razoável vinho francês, a partir de sensivelmente 2.80€.
A tarde foi produtiva em gravações, cumprir instruções do patrão, e apoio à loja. Por vezes parece que o dia não chega para tudo, apesar de aparentemente não estar a fazer nada.
O jantar foi uma caldeirada com o peixe possível, dentro da oferta de congelados, e duas tentativas falhadas de filmes que não cheguei a ver.

dia 50, segunda-feira, 4 de Maio

O dia 50 veio confundir-me as voltas. Na meteorologia dizia que estava apenas nublado, e na varanda indiciava vento e chuva. Optei por ir ao escritório de carro, de documentos em riste, preparado para chuva, de máscara, gel e luvas. Mas não choveu.
O ir e vir foi tranquilo e sem policia de fronteira, e a permanência no escritório foi tranquila e rentável tendo deixando a papelada organizada, pelo menos até à próxima incursão do patrão, que não chegou a aparecer. O restaurante está em manutenção, de cadeiras e mesas viradas do avesso.
De regresso a França, para matar saudade sigo por Belval e vou ao Delhaize, comprar umas faltas, que sempre existem, e aproveito para comprar mais ervas aromáticas para dispor. Agora tenho um arsenal de canteiros.
A tarde teve alguma alteração na rotina, pois troquei a musica pelo pedalar e ainda deu para 12 Km, no meio de um transito que a cada dia se vai intensificando, prenuncio de que a partir do dia 11 as restrições irão ser menores, e possamos prepararmos para a vida parcialmente normal, mas, mascarados.
O filme da noite foi "Mar vermelho", que trata de mais um relato baseado em factos verídicos. **** 

sábado, 2 de maio de 2020

dia 49, domingo, 3 de Maio

Hoje completei 450 Km feitos na minha bicicleta desde o dia um. Pode parecer à primeira vista um exagero mas é uma média de 9 Km ao dia, que tentarei aumentar enquanto o confinamento continuar e se o tempo permitir. Hoje foram pouco mais de 15, feitos sem grande dificuldade, com muito prazer, apesar do teimoso vento contrário. No meu trajecto já consigo identificar uma série de veículos estacionados sempre no mesmo lugar, alguns desde que tudo isto começou, bem como vai aumentando o numero de pessoas que me cumprimentam na volta matinal, pois saímos à mesma hora.
O facto de ser domingo pouco ou nada altera as rotinas, embora se sinta uma pasmaceira ainda maior pois neste país o comércio está encerrado ao domingo, a grande expectativa do dia reside nas novas medidas a inaugurar em Portugal, e na proximidade do anuncio das medidas a curto prazo em França e no Luxemburgo.
A tarde foi repetitiva, bem como a noite. Com dois filmes de qualidade: "Donnie Brasco", com Al Pacino, e "o limite da traição", ambos ****.
Também vale salientar um bom espumante francês: Jura.

dia 48, sábado, 2 de Maio

Com muitas nuvens, e vento mas sem chuva, se iniciou este sábado, mais um sábado em que não vou tocar no restaurante, e sem saber quando vamos regressar, e em que condições.
Não obstante ser resiliente, e não me desagradar estas rotinas de quase 50 dias, existe em mim, algo a crescer de impaciência latente, que vou ter de controlar na base do velho chavão que uso como lema: " sobre o que não é da tua responsabilidade e não podes controlar, nada tens a fazer".
Este dia deu para fazer pouco mais de 13 Km, com vento vindo de oeste que me empurrou cada vez que lhe fazia frente.
O final da manhã cumpriu-se com êxito na tentativa de ajudar o meu filho nas respostas aos e-mails, o que me deixa muito satisfeito, e claro, a ele.
Ainda acompanhei um pouco das noticias sobre o rescaldo das manifestações sobre o dia 1 de Maio, e pelo que vi, Portugal foi a excepcional vergonha.
O tempo manteve-se instável, a convidar a uma tarde de cinema, e por isso decidi trocar o estúdio pela tela, que é como que diz, mais um filme na Netflix. E foi muito bem escolhido. Foi um daqueles filmes que ao o vermos, pensamos que para aquele tal papel, apenas se adequa um actor: Anthony Hopkins. ****

sexta-feira, 1 de maio de 2020

dia 47, sexta-feira, 1 de Maio


O dia do trabalhador amanheceu com muita chuva, e céu fechado com nuvens. Mesmo assim, depois de ver uma pausa pluvial, atrevi-me, e cheio de fé  fardei-me a rigor e protegido contra os dez graus na rua. De certo modo o S. Pedro ajudou, pois consegui permanecer uns quarenta minutos na rua e fazer uns onze quilómetros que já me deixam animicamente bem disposto.
Depois a chuva andou aos solavancos, entre alguns momentos de sol, e retorno de pingos.
O dia 47, é o dia 1 de Maio. No meu país, a esquerda sindicalista, inconsciente, contorna a lei e faz manifestação na mesma, apalhaçada, e apenas para obter protagonismo. Creio que afastarão alguns potenciais eleitores, e que nos próximos tempos sejam uma dor de cabeça para o governo. Aqui na França proibiram as manifestações do 1o de Maio, e até a tradicional venda de uma flor que nasce nos bosques, e dizem dar sorte, o "Muguet". 
A tarde começou com mais gravações e agora já vou acertando com o audio, com um resultado sofrível. Gravei Polo Norte, Abrunhosa, e Paulo Gonzo.
Comecei a praticar um pouco nos acessos aos sites da loja, para me preparar na ajuda ao meu filho, e creio que em uma semana terei capacidade de lhe retirar algum trabalho.
O filme da noite foi de episódios de uma série brasileira "Coisa mais linda", que parecia uma chachada no inicio, mas que se tornou interessante, na abordagem ao machismo e direitos da mulher, no inicio dos anos 60, no Brasil. ***

quinta-feira, 30 de abril de 2020

dia 46, quinta-feira, 30 de Abril


Com a reposição do clima mais típico daqui, o dia começou dito normal, de chuva, muito nublado, e com vento. Consultando a página do restaurante de Portugal vejo que estamos a fazer um bom trabalho, pois há encomendas, perguntas sobre pratos e preços, e uma publicação feita 14 horas antes já tinha quase 2000 visualizações.
Teimosamente iniciei o exercício matinal com chuva, e com chuva tive do o acabar ao fim de um quarto de hora, com vento forte e dez graus no termómetro. Larguei a bicicleta e montei-me no carro, e rolei mais uns Km na vila.
Ao retornar ao computador li duas boas noticias: a de que o meu patrão pode concorrer a um apoio financeiro a fundo perdido, e a de que se prevê a abertura dos restaurantes e hotéis para a segunda quinzena de Maio.
E a meio da manhã o tempo melhorou um pouco, mas não me atrevi. O tempo aqui muda de repente, e enquanto eu me despisse, virava outra vez.
Depois de almoço foi a habitual descida ao estúdio de onde extrai mais dois temas, um, o "Breathe" dos Pink Floyd que já rende uns likes. Existe pessoal que liga aos likes como se fossem notas de 50€, eu apenas gosto que vejam o meu trabalho. Gostar é uma opção.
O resto da tarde foi sonsa, mas com o inicio da preparação para começar a dar um apoio ao meu filho no que diz respeito ao fluxo de e-mails, e penso que vou conseguir libertar-lhe tempo, que é coisa que não me falta.
Depois das publicações dos restaurantes, bebi um dos melhores vinhos tintos dos últimos tempos, um tinto Bordeaux Superior com 14,5 graus.
As noticias de desconfinamento de Portugal vão chegando, bem como as da França. Contudo, no que toca à França, a zona onde me encontro continua inalterável, dado o numero de casos.
O filme da noite foi uma porcaria. *

quarta-feira, 29 de abril de 2020

dia 45, quarta-feira, 29 de Abril


Começa o dia com céu em tom de bronze carregado, e algum vento, mas aparentemente sem ameaçar chuva, e por isso me equipei a rigor para tentar fazer o mínimo de 12 Km, mas que tive de reduzir para 10, porque efectivamente começou a chover. Como tenho de limitar a volta com uma distância máxima, não estava muito longe de casa. E pela cara do tempo adivinhava-se que o dia iria ser assim até ao final. O resto da manhã fez-se a tratar de melhorar a imagem do restaurante do Pinhal de Frades, no Facebook.
Depois do almoço, houve a habitual descida ao estúdio e fiz mais uma boa meia dúzia de gravações que continuam e ter boa receptividade. Estou a gravar e publicar realmente musicas que me dizem algo, e falo delas sem me importar se quem vê a publicação gosta ou não. O que publico tem de ser uma extensão de mim, e não ser algo para agradar a terceiros. Escolhi para publicar, os temas "Emoções" e "Como dizia o poeta".
O restante da tarde foi passado em mais uma contribuição na divulgação on line dos restaurantes, e no caso do de Portugal tem tido sucesso, o que me deixa orgulhoso. Fazer o bem, sabe bem.
Com uma trégua da chuva consegui grelhar na varanda, para depois me dedicar ao filme "Panama Papers", com a minha actriz preferida, a Meryl Streep. ****


terça-feira, 28 de abril de 2020

dia 44, terça-feira, 28 de Abril

E ao dia 44, o tempo voltou ao normal. Com excepção de que a chuva me lavou o carro, é com muita pena minha que acordei com chuva  lá fora, e por isso mudei os habituais planos diários, não deixando de sair. Decidi ir fazer mais umas compras ao Lidl, devidamente apetrechado do documento de saída, máscara e luvas. A policia estava a fazer controle como habitual e vi alguns carros a fazerem meia volta de retorno. No interior do supermercado, o clima é de conformação e obediência pelas novas regras, estando quase todos protegidos, e mantendo as distâncias. Excepções: os velhos e os portugueses. Os primeiros mexem em tudo e depois deixam ficar, sem comprar e os segundos, andam tristemente sem protecção. São factos.
O depois de almoço foi de estúdio, com particular destaque para o tema "Canção do Mar" que publiquei e já teve alguns elogios, mais uma sessão de bicicleta em casa, pois a chuva manteve-se, e a escolha de mais um filme, baseado num livro, com a particularidade de ser holandês, e a acção decorrer em Amesterdão, no século XIX, "Uma nobre intenção". ***

dia 43, segunda-feira, 27 de Abril

Renovada a confirmação de mais um dia de sol, preparei a documentação para ir ao escritório, e sem haver policia no caminho, entrei como habitualmente no Luxemburgo, que mantém um escasso movimento de carros. Ao chegar ao restaurante, venho que o patrão seguiu o meu conselho de chamar o pessoal, para lhes dar alguma ocupação, e ir fazendo algumas arrumações, e assim dar uma sensação mesmo que curta, de que o confinamento está a desanuviar. Foi bom rever o pessoal, e muito melhor foi, beber um café de máquina, um "bica". Depois de descer ao escritório, encontrei o caos já esperado, que é o de ver a secretária do patrão com documentos de toda a espécie espalhados, e começo por separar os que já foram "tratados", ou seja, que já registei, dos que ainda não passaram por mim. A principio isto fazia-me confusão, e irritava-me até um pouco. No presente, seja por hábito, seja porque deixou de haver o factor surpresa, até estranho se houver arrumação, que é como quem diz - o patrão não tem vindo ao escritório. Depois dele chegar tratou-se dos assuntos do dia, conversou-se um pouco. Apesar de toda esta situação, ele mantém a vontade de abrir o terceiro restaurante, o que prenuncia que irei ter mais trabalho, mas também o contrato de trabalho melhorado e mais bem remunerado. Bem preciso.
O almoço foi na varanda, ao que se seguiu uma tarde atípica em período de confinamento. Assumi por gosto a responsabilidade de dar uma ajuda nos flyers do restaurante onde costumava almoçar no Pinhal de Frades, que iniciou o serviço de take away. Pintei os estrados da varanda, e no final da tarde apareceram duas noticias não muito boas: o carro precisa de mudar filtros e oleo, e serão mais uns euros gastos. De qualquer modo penso que o actual vencimento que disponho me permite que ainda sobre algum dinheiro, depois de pagos os encargos e despesas mensais. A outra noticia, foi a da morte do irmão de um colega de escola, com apenas 53 anos. Como dizia a minha avó: não somos nada.
Depois de um jantar de bacalhau no forno, mais um filme sobre um caso verídico, desta vez relatando o caso de uma mulher que criou uma espécie de fundação ateia, muito arrogante e provocadora. Em alguns momentos fez-me lembrar a minha mãe. "A mulher mais odiada" **


domingo, 26 de abril de 2020

dia 42, domingo, 26 de Abril


Dia 42, e talvez o dia 40 de sol, repito por isso, com céu azul e 15 graus. Depois do rol de noticias no rescaldo do dia da revolução dos cravos, que ainda correm pelos noticiários e pela rede social, preparo a volta da praxe que se ficou em mais cerca de 15 Km, e com a visão inédita de um dos patos do rio, a passear me plena via rápida, a que vem do Luxemburgo a Audun. A par deste insólito, noto pela primeira vez a presença de pombos que se atrevem e debicar nos quintais, e fazem voos rasantes, o que me leva a pensar se são meras coincidências ou realmente os animais estão mais atrevidos.
No restante, é o quadro habitual, de tudo fechado, exceptuando as duas padarias. Cruzo-me com pessoas que já vou conhecendo e que também me vão conhecendo. No que diz respeito ao pão, que aqui se consome muito na versão bagette, faz-me confusão que os franceses continuem a transportar as bagettes com aqueles sacos à meia canela, que expõe perto de um terço do pão ao ar. E se dizem que o vírus anda no ar...
Almoço de grelhados e filme na matinée, que nem foi nada de especial, por isso nem vale a pena menciona-lo. Mesmo que os domingos se confundam com os restantes dias da semana, no que toca ao lazer, existe sempre uma tendência para arranjar uma desculpa para mais "descanso".
As noticias falam em desanuviamento, e estou apreensivo em como vai ser, e como vão as autoridades agir. Vai ser muito difícil convencer o pessoal de que tudo mudou, tal como será quase impossível não colocar a economia a andar, sob pena de uma asfixia geral, que serà como uma espécie de novo vírus.