domingo, 5 de abril de 2020

Dia 1, segunda-feira, 16 de Março



Como que a contrariar o pessimismo de toda esta situação de pandemia, o dia amanheceu soalheiro e de temperatura amena. Depois de semanas de céu cinzento e chuvoso, olhar para o alto e ver o azul é como que um recado de que a vida continua, e nestes dias, é de cuidar da vida que se trata. Manter-nos vivos é o objectivo.
Decidi não dar atenção a publicações de praticamente todos os contactos do Facebook, bem como não abro arquivos apocalípticos. Tenho de basear as minhas fontes de informação em locais credíveis, mesmo que estes não sejam fidedignos a 100%, pois entendo que isenção total é utópica. Pergunto ao vento que passa, noticias do meu país, diz a canção...
A habitual ida para o escritório do restaurante, rotina de todas as manhãs, nesta segunda-feira deu lugar a uma ida atípica, sem objectivo definido. De facto, fui um pouco na expectativa de observar mudanças de comportamento, uma vez que de bicicleta consigo percorrer grande parte da zona central de Esch. Começando pela rua Alzette, uma enorme rua com mais de um quilometro, ladeada por lojas nos pisos térreos, e muitos consultórios nos pisos superiores. Esta rua funciona como ponto de encontro a muitos emigrantes, que aparentemente não trabalham, seja porque estejam reformados, de baixa médica, desemprego, etc. é nesta rua que, desde que ali passo escuto diálogos de informação táctica, de ludibriar o estado luxemburguês, e dele viver à conta. Para meu desgosto, a esmagadora maioria dessa gente, é portuguesa.
À primeira vista, a moldura humana não era diferente do habitual. A grande diferença residiu na quase totalidade de lojas fechadas, e cafés, com as esplanadas encerradas. As excepções foram as duas farmácias, abertas, mas de porta fechada, com filas na rua, bem como na Post (correios) onde a fila se prolongava por mais de 30 metros, no momento em que passei.
Esch tem um pulmão. Um pulmão de verde. O seu parque. Local que frequento invariavelmente desde 2015, onde fotografo, medito, e gasto o meu tempo com prazer. Foi para ali que me desloquei. E conclui que apesar de todas as mudanças das ultimas horas, a natureza, a verdadeira dona do planeta, segue o seu caminho. Este planeta, mutilado pelo homem, na sua ganância, mas não, ferido de morte. Pelo que o parque continua sereno na sua recepção à Primavera, com o florescer de novas flores, com o canto das suas aves.
Muito menor, é o ruído que se ouve no parque, vindo da cidade. Uma cidade que mexe, mas com muito menos intensidade.
De regresso à França, passo pelo supermercado Cactus, onde se notavam os vestígios de açambarcamento, principalmente na zona das carnes.
Ao cair da noite, o Macron falou à França.
E a partir desse discurso, tomei consciência de que o dia um, foi apenas um ensaio. A partir do dia dois a França fecharia as suas portas. 
Para sublinhar a tomada de consciência real do momento decidi rever o filme "ensaio sobre a cegueira".
Ao deitar, retomei a leitura, gosto que perdera, e que recuperei desde que a minha vida emocional e financeira se compôs. O livro por agora é “O Guarani”, do autor brasileiro José de Alencar.

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