Os
dias antes do dia zero começaram tão subtilmente, quanto
imperceptíveis. Eram noticias vindas de uma China, longínqua, onde
segundo os meios de comunicação nos diziam que existiam pessoas a
deixar de existir, por culpa de uma infecção transmissível. À boa
maneira a que nos acostumamos, o pensamento geral, foi aquele
assobiar para o lado, com a habitual desculpa de que aquilo é surto
dos chineses, que comem toda a porcaria que lhes surge pela frente, e
pronto, o caso fica arrumado. E também, como habitualmente,
arrumamos a informação na gaveta dos "assuntos com os quais
nada temos a ver", e ficamos descansados.
O
erro, de menosprezo, creio que foi universal, e todos estamos agora a
pagar o erro do assobio, um costume tão enraizado no
egoísmo do ser humano. Passamos de espectadores a actores, que não
sabem bem que papel representar neste teatro, nem quando vai terminar
a peça, ou se estamos na pratica a viver o ultimo dia do resto da
nossa vida.
E
foi assim que, com uma noticia aqui, outra noticia ali, foram
chegando as informações de internacionalização, ou exportação,
do corona virus. E foi assim que, nos dias antes do dia zero, me
deparei com funcionárias no dentista, com máscaras. Foi assim que,
no dia 1 de Março, viajei com meia dúzia de betinhos com máscaras,
do Luxemburgo para Lisboa. Como se esses sinais fossem uma espécie
de lembrete de que algo estaria para acontecer, e não um exagero pontual. Um excesso de zelo.
Assim
foram os dias - zero, até que, como que vindo do nada, se instala o
caos em Itália, galopando para os outros países europeus. Coincide
a semana - zero com uma actuação que fiz, num restaurante italiano,
numa festa privada... para italianos. Coincide com a semana em que
estando debilitado pela quantidade de actuações consecutivas, uma
queda, e a natural ressaca de tudo isto, me tenha acometido, um habitual estado de
debilidade física, que sempre que me afecta, começa pela garganta,
com a consequente tosse, do que suscitou a possibilidade de
pensamento de contagio.
Ainda
na semana - zero, os sinais evidentes de pânico encoberto chegam na
visão de carros de supermercado carregados até ao limite, apesar
das recomendações oficiais, prova-se assim a força superior dos
tradicionais boca-a-boca, do boato, aliados aos mais recentes meios
de espalhar a confusão: as redes sociais. As noticias inventadas,
copiadas, as fotos publicadas e partilhadas, fizeram com que mais de
meio mundo se fosse abastecer para dois meses.
O
dia zero chegou no domingo. As comunicações dos governantes
europeus não deixaram duvidas. A ordem é para quarentena.
Na
noite de domingo, dia 15, publiquei o fecho do restaurante até pelo
menos, ao dia 29, na esperança de que apenas essa medida seja
suficiente para retomar a habitual rotina, contrariando as noticias
que vão chegando de que cada vez existem mais pessoas afectadas,
mais mortes, mais propagação, e também da consciência de que
mesmo que por milagre todos os infectados ficassem curados, naquele
momento, os danos ali agora causados, teriam um impacto avassalador,
na vida de cada um, e na economia de todos os países.

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