domingo, 5 de abril de 2020

Os dias antes do dia Zero e o dia Zero



Os dias antes do dia zero começaram tão subtilmente, quanto imperceptíveis. Eram noticias vindas de uma China, longínqua, onde segundo os meios de comunicação nos diziam que existiam pessoas a deixar de existir, por culpa de uma infecção transmissível. À boa maneira a que nos acostumamos, o pensamento geral, foi aquele assobiar para o lado, com a habitual desculpa de que aquilo é surto dos chineses, que comem toda a porcaria que lhes surge pela frente, e pronto, o caso fica arrumado. E também, como habitualmente, arrumamos a informação na gaveta dos "assuntos com os quais nada temos a ver", e ficamos descansados.
O erro, de menosprezo, creio que foi universal, e todos estamos agora a pagar o erro do assobio, um costume tão enraizado no egoísmo do ser humano. Passamos de espectadores a actores, que não sabem bem que papel representar neste teatro, nem quando vai terminar a peça, ou se estamos na pratica a viver o ultimo dia do resto da nossa vida.
E foi assim que, com uma noticia aqui, outra noticia ali, foram chegando as informações de internacionalização, ou exportação, do corona virus. E foi assim que, nos dias antes do dia zero, me deparei com funcionárias no dentista, com máscaras. Foi assim que, no dia 1 de Março, viajei com meia dúzia de betinhos com máscaras, do Luxemburgo para Lisboa. Como se esses sinais fossem uma espécie de lembrete de que algo estaria para acontecer, e não um exagero pontual. Um excesso de zelo.
Assim foram os dias - zero, até que, como que vindo do nada, se instala o caos em Itália, galopando para os outros países europeus. Coincide a semana - zero com uma actuação que fiz, num restaurante italiano, numa festa privada... para italianos. Coincide com a semana em que estando debilitado pela quantidade de actuações consecutivas, uma queda, e a natural ressaca de tudo isto, me tenha acometido, um habitual estado de debilidade física, que sempre que me afecta, começa pela garganta, com a consequente tosse, do que suscitou a possibilidade de pensamento de contagio.
Ainda na semana - zero, os sinais evidentes de pânico encoberto chegam na visão de carros de supermercado carregados até ao limite, apesar das recomendações oficiais, prova-se assim a força superior dos tradicionais boca-a-boca, do boato, aliados aos mais recentes meios de espalhar a confusão: as redes sociais. As noticias inventadas, copiadas, as fotos publicadas e partilhadas, fizeram com que mais de meio mundo se fosse abastecer para dois meses.
O dia zero chegou no domingo. As comunicações dos governantes europeus não deixaram duvidas. A ordem é para quarentena.
Na noite de domingo, dia 15, publiquei o fecho do restaurante até pelo menos, ao dia 29, na esperança de que apenas essa medida seja suficiente para retomar a habitual rotina, contrariando as noticias que vão chegando de que cada vez existem mais pessoas afectadas, mais mortes, mais propagação, e também da consciência de que mesmo que por milagre todos os infectados ficassem curados, naquele momento, os danos ali agora causados, teriam um impacto avassalador, na vida de cada um, e na economia de todos os países.


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