domingo, 5 de abril de 2020

Dia 8, segunda-feira, 23 de Março


Mais um irónico dia de sol, que convida ao passeio, mas não se pode passear.
Aguardo a passagem do carteiro, na esperança de que este me traga uma carta do médico contendo uma receita da minha medicação habitual. O carteiro passou mas a carta não chegou. Essa carta será um salvo conduto válido para uma ida ao Luxemburgo, até que seja aviada a receita. Em todo o caso decido arriscar, pego no carro que precisa de rodar e sigo para Belval. Os carros são raros. Sinto-me vigiado pelas inúmeras câmaras instaladas no Grão Ducado. O Luxemburgo é uma espécie de Big Brother, carregado de câmaras de vigilância, que neste momento transformam a sensação de segurança, na sensação de que estou a cometer um ilícito. Ao chegar a Belval, cruzo-me com um carro da Policia, mas não fui abordado. Penso que as matriculas francesas, vão suscitar abordagens frequentes.
O centro comercial está todo fechado, com excepção do supermercado. O parque subterrâneo está praticamente vazio, e à entrada do espaço comercial existe um segurança, que manda entrar e sair os clientes, como se fosse um policia sinaleiro. As linhas amarelas no chão, dizem-nos onde parar. Já lá dentro, clientes e pessoal cria a prudente distância do próximo, e vira a cara para o lado.
De regresso, arrumo as compras, que creio me aprovisionarão para mais de uma semana, e sigo directo para mais uma etapa ciclística. Desde o dia um que fiz cerca de 40 quilómetros.
A tarde foi passada com pouca novidade. Mais uns toques na viola, mais outro circuito de 5 Km, no mesmo trajecto, a mesma observação dos locais que a minha vista alcança, e o regresso à sensação de liberdade privada. Mas dentro das limitações impostas, pelo menos temos a chance de sair um pouco. Convém que, quem se queixa das restrições, leia ou releia o diário de Anne Frank, para dar valor ao que ainda lhe é permitido, em termos de liberdade.
No final da tarde recebo uma espécie de inquérito do amigo Raminhos, gestor da página on-line "Jornal do Luxemburgo", com algumas questões, para publicação no Facebook. Decido responder, e foi isto:

Está fechado em casa? há quantos dias? onde? (localidade)
Jorge Trindade – Não estou fechado a tempo inteiro, mas as saídas são as estritas mediante as necessidades dentro do que é autorizado.Estou nesta situação desde o dia 16, e moro em Audun-le-Tiche.
O que faz para ocupar o tempo? dá para trabalhar através de casa a meio gás?
Jorge Trindade – Ocupo o tempo, fazendo alguns trabalhos online, na área do webdesign, é o trabalho a pouco gás. Ocupo também a rever algumas musicas do repertório, ou simplesmente a tocar de improviso, bem como ouvir aqueles discos que não ouvia há anos. Faço 10 quilómetros de bicicleta por dia, em casa ou na rua, conforme o clima. E também mantenho hábito da leitura.
É considerada uma das pessoas de risco? ou é ou suporte da família e desloca-se à rua para ir buscar os bens necessários?
Jorge Trindade – Não estou nos grupos de risco, e raramente me desloco para abastecer-me de bens.
Quer deixar uma mensagem à Comunidade e de todos os que permanecem em casa?
Jorge Trindade – Ninguém sabe quando nem como isto vai acabar. Para além de nos esforçarmos por nos manter de saúde, devemos reflectir seriamente nas prioridades e objectivos pessoais, bem como da nossa postura no futuro, tanto no campo familiar, como social. Este é um bom momento para escolhas, e avaliações, sem nos esquecermos que a reciprocidade é inevitável.
O serão começou com mais um pouco do filme O Padrinho I, e a tentativa de resolver on line um assunto ao meu patrão.
Começo a ler um livro que trouxe de Portugal, no dia 4. Ultimamente parte da minha mala vem provida de livros. O livro é de um autor com o qual pouco simpatizo, mas mesmo assim vou arriscar na sua leitura. Chama-se "O Aleph", do escritor Paulo Coelho.







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