domingo, 5 de abril de 2020

Dia 3, quarta-feira, 18 de Março


Por vezes acordamos de um pesadelo, e sentimos aquele alivio que finaliza os maus momentos vividos até aquele momento. No presente momento, acordamos, e confirmamos que a pandemia existe, e que havendo duvidas, basta ligar o PC, a tv, ou o rádio. Ou mesmo espreitar pela janela e ver as pessoas de máscara.
Foi assim o acordar de hoje, que começou com o anuncio na SIC Noticias das ajudas financeiras, que, ou muito me engano, serão para sectores seleccionados, e carregados de burocracia. Veremos na hora de contar os danos quem morreu da doença, e quem morreu, porque o estado não quis saber da sua situação, com aquele critério ignóbil sobre o que é, e não é essencial. Lembrando o filme Lista de Schindler.
Tinha colocado como objectivo matinal, fazer uma limpeza a fundo ao carro, mas ao assomar-me à janela vejo um carro patrulha da "gendarmerie", a GNR daqui, e passou-me a vontade. Nunca se sabe se um vizinho não acharia ser esse acto contra os regulamentos impostos, e fosse denunciar-me. Pelo menos no primeiro dia de quarentena na França, o carro fica por limpar.
Telefonemas do patrão e do Restaurante onde costumava tocar todas as sextas, ocuparam-me praticamente toda a manhã, junto com a escuta das análises ao anuncio das medidas a tomar em Portugal.
O almoço foi em forma de restos, pois assim deve ser. Conter as despesas é parte da quarentena.
Depois de almoço, não me atrevi a sair. A ausência de pessoas na rua contagia e mete respeito. Embora o meu local de residência seja sossegado, sempre havia algum movimento. Vê-se uma ou outra pessoa a passar, mas nada como habitual. Assim é com os carros. Parece que tudo congelou.
Pelo que vou vendo nas redes sociais, a corrida aos supermercados vai continuando. E também foram anunciadas medidas de quarentena na Bélgica.
Dediquei a tarde a fazer algumas experiências audio, e talvez faça umas gravações caseiras. E durante longos períodos apenas oiço musica para equilíbrio emocional tão necessário. Ouvir musica, sempre foi para mim, por imperativos pessoais, ou profissionais, quase como respirar. Nos momentos pessoais, deixo fluir a musica, deixo que ela tome conta de mim e me faça sentir bem. Simplesmente. Por isso a escolho conforme o estado de espírito, e até consoante a estação do ano. No campo profissional é diferente. Há que estudar, dissecar, definir a construção, detectar os pontos mais complicados, e por vezes, por tão inatingíveis, contorna-los. Torna-se um olhar técnico que na esmagadora maioria dos temas que escolho, têm de passar pelo processo primário: identificar-me com os mesmos.

No final do dia 3, depois de uma experiência em torno da carne de porco no forno, e de um Rioja espanhol, o momento esperado era o discurso do professor Marcelo, que se mostrou uma desilusão, mas por mim esperada. O professor, que neste momento tem a oportunidade de fazer valer uma posição de punho forte, e de justificar o lugar que ocupa - o de Chefe da Nação, chutou a bola. Sem desculpa, atendendo aos exemplos de alguns países europeus, e acima de tudo porque como se verifica também, cada hora perdida, potencia a expansão da pandemia.
Relembrando os serões de domingo à noite, em que escutava o professor na TVI, em silenciosa e dissimulada campanha eleitoral: Professor, dou-lhe apenas um valor. Reprovado.

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