Por
vezes acordamos de um pesadelo, e sentimos aquele alivio que finaliza
os maus momentos vividos até aquele momento. No presente momento,
acordamos, e confirmamos que a pandemia existe, e que havendo
duvidas, basta ligar o PC, a tv, ou o rádio. Ou mesmo espreitar pela janela e ver as pessoas de máscara.
Foi
assim o acordar de hoje, que começou com o anuncio na SIC Noticias
das ajudas financeiras, que, ou muito me engano, serão para sectores
seleccionados, e carregados de burocracia. Veremos na hora de contar
os danos quem morreu da doença, e quem morreu, porque o estado não
quis saber da sua situação, com aquele critério ignóbil sobre o
que é, e não é essencial. Lembrando o filme Lista de Schindler.
Tinha
colocado como objectivo matinal, fazer uma limpeza a fundo ao carro,
mas ao assomar-me à janela vejo um carro patrulha da "gendarmerie",
a GNR daqui, e passou-me a vontade. Nunca se sabe se um vizinho não
acharia ser esse acto contra os regulamentos impostos, e fosse
denunciar-me. Pelo menos no primeiro dia de quarentena na França, o
carro fica por limpar.
Telefonemas
do patrão e do Restaurante onde costumava tocar todas as sextas,
ocuparam-me praticamente toda a manhã, junto com a escuta das
análises ao anuncio das medidas a tomar em Portugal.
O
almoço foi em forma de restos, pois assim deve ser. Conter as
despesas é parte da quarentena.
Depois
de almoço, não me atrevi a sair. A ausência de pessoas na rua
contagia e mete respeito. Embora o meu local de residência seja
sossegado, sempre havia algum movimento. Vê-se uma ou outra pessoa a
passar, mas nada como habitual. Assim é com os carros. Parece que
tudo congelou.
Pelo
que vou vendo nas redes sociais, a corrida aos supermercados vai
continuando. E também foram anunciadas medidas de quarentena na
Bélgica.
Dediquei
a tarde a fazer algumas experiências audio, e talvez faça umas
gravações caseiras. E durante longos períodos apenas oiço musica
para equilíbrio emocional tão necessário. Ouvir musica, sempre foi
para mim, por imperativos
pessoais, ou profissionais, quase como respirar. Nos momentos pessoais, deixo fluir a
musica, deixo que ela tome conta de mim e me faça sentir bem.
Simplesmente. Por isso a escolho conforme o estado de espírito, e
até consoante a estação do ano. No campo profissional é
diferente. Há que estudar, dissecar, definir a construção,
detectar os pontos mais complicados, e por vezes, por tão
inatingíveis, contorna-los. Torna-se um olhar técnico que na
esmagadora maioria dos temas que escolho, têm de passar pelo
processo primário: identificar-me com os mesmos.
No
final do dia 3, depois de uma experiência em torno da carne de porco
no forno, e de um Rioja espanhol, o momento esperado era o discurso
do professor Marcelo, que se mostrou uma desilusão, mas por mim
esperada. O professor, que neste momento tem a oportunidade de fazer
valer uma posição de punho forte, e de justificar o lugar que ocupa
- o de Chefe da Nação, chutou a bola. Sem desculpa, atendendo aos
exemplos de alguns países europeus, e acima de tudo porque como se
verifica também, cada hora perdida, potencia a expansão da
pandemia.
Relembrando
os serões de domingo à noite, em que escutava o professor na TVI,
em silenciosa e dissimulada campanha eleitoral: Professor, dou-lhe
apenas um valor. Reprovado.

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