Sábado
de sol, para não variar dos dias anteriores. Existe agora uma
coerência quase mórbida, entre o bom tempo, o ter tempo para lazer,
mas não poder fazer o que nos apetece. Com o gasóleo a metade do preço de um vinho rasca,
a vontade que dá é colocar como destino no GPS uma localidade com
interesse, levar a bicicleta no carro, e percorrer tanto local bonito
e interessante aqui à volta.
A
saída diária da manhã dividi-a em duas. Primeiro saí com o carro
e percorro parte de Audun, com o documento justificativo de compra de
primeira necessidade, quando a real e única necessidade é a de ir
movimentando o carro. Em seguida pego na bicicleta, munido de outro
documento, o das saídas para exercício, e rumo ao cemitério, onde
existe um pequeno santuário, erguido pela população local, com
alguns traços característicos na sua concepção desta gente
outrora mineira, e uma quantidade de Nossas Senhoras. O conta
quilómetros da bicicleta diz-me que estou a 1400 metros de casa,
pelo que estou a transgredir a lei.
Não
sou religioso, na acepção da palavra. Acho que a Igreja usa a fé
das pessoas, numa constante demagogia oportunista, que visa o poder e
captar dividendos. Contudo, tenho a minha fé, e respeito a fé dos
outros. Por isso, mesmo sabendo que o Homem é o principal deturpador
da fé, sinto sempre algo no meu interior, em locais de culto,
principalmente os menos faustosos, como é o caso deste pequeno
santuário. Ao chegar fiz o sinal da cruz, por respeito, e sentei-me
um pouco, sem nada pensar, desfrutando apenas daquele silêncio, e da
possibilidade de poder ali permanecer. Quando me preparava para
regressar, chegou uma senhora, decerto octogenária, que me disse
"bonjour" em surdina, e em surdina lhe retribuí a
saudação. Depois, a senhora benzeu-se, e começou a rezar. Não é
difícil adivinhar, que ambos, ali fomos pelo mesmo motivo.
A
tarde, passei-a a escrever mais um pouco das minhas memorias, e
continuo a achar incrível a quantidade de recordações que tinha
dentro de mim, tão bem guardadas ou escondidas, que este exercício
de escrita me tem trazido.
O
serão foi preenchido com 'o padrinho III', e o lamento de não ter
havido um IV e um V. Mas seria impossível. O autor da saga, Mario
Puzo, morrera.

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