domingo, 5 de abril de 2020

Dia 13, sábado, 28 de Março



Sábado de sol, para não variar dos dias anteriores. Existe agora uma coerência quase mórbida, entre o bom tempo, o ter tempo para lazer, mas não poder fazer o que nos apetece. Com o gasóleo a metade do preço de um vinho rasca, a vontade que dá é colocar como destino no GPS uma localidade com interesse, levar a bicicleta no carro, e percorrer tanto local bonito e interessante aqui à volta.
A saída diária da manhã dividi-a em duas. Primeiro saí com o carro e percorro parte de Audun, com o documento justificativo de compra de primeira necessidade, quando a real e única necessidade é a de ir movimentando o carro. Em seguida pego na bicicleta, munido de outro documento, o das saídas para exercício, e rumo ao cemitério, onde existe um pequeno santuário, erguido pela população local, com alguns traços característicos na sua concepção desta gente outrora mineira, e uma quantidade de Nossas Senhoras. O conta quilómetros da bicicleta diz-me que estou a 1400 metros de casa, pelo que estou a transgredir a lei.
Não sou religioso, na acepção da palavra. Acho que a Igreja usa a fé das pessoas, numa constante demagogia oportunista, que visa o poder e captar dividendos. Contudo, tenho a minha fé, e respeito a fé dos outros. Por isso, mesmo sabendo que o Homem é o principal deturpador da fé, sinto sempre algo no meu interior, em locais de culto, principalmente os menos faustosos, como é o caso deste pequeno santuário. Ao chegar fiz o sinal da cruz, por respeito, e sentei-me um pouco, sem nada pensar, desfrutando apenas daquele silêncio, e da possibilidade de poder ali permanecer. Quando me preparava para regressar, chegou uma senhora, decerto octogenária, que me disse "bonjour" em surdina, e em surdina lhe retribuí a saudação. Depois, a senhora benzeu-se, e começou a rezar. Não é difícil adivinhar, que ambos, ali fomos pelo mesmo motivo.
A tarde, passei-a a escrever mais um pouco das minhas memorias, e continuo a achar incrível a quantidade de recordações que tinha dentro de mim, tão bem guardadas ou escondidas, que este exercício de escrita me tem trazido.
O serão foi preenchido com 'o padrinho III', e o lamento de não ter havido um IV e um V. Mas seria impossível. O autor da saga, Mario Puzo, morrera.


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