Depois
do embate das medidas anunciadas pelo presidente francês, o dia
amanheceu como que suave e ténue, como que se a natureza quisesse
brindar-nos com os ares primaveris, para acalento das nossas mágoas.
Estava marcado com o meu patrão um encontro pelas 11 horas da manhã
a fim de ser autenticado um documento que me permite circular entre
os dois países, que a partir do dia 17, passariam a ter controles de
fronteira. A partir do dia 17 estou obrigado a exibir um documento
emitido pelo Governo do Grão Ducado luxemburguês, onde constam os
dados da minha entidade empregadora, os meus dados, e assinaturas com
carimbo. Bem como tenho de me fazer acompanhar de um outro documento,
este de origem francesa, com a minha identificação, que tem vários
campos de escolha sobre o motivo pelo qual ando na rua. Escolhi três
motivos, e fiz três exemplares que terei de colocar nos meus
pertences, sempre que sair à rua, sob pena de ser multado em 135€.
Os motivos são, 1 - por razões de trabalho, 2 - Para compras
essenciais ( supermercado e farmácia ) , 3 - Caminhada individual,
que tentarei fazer, e também de bicicleta.
Na
ida a Esch, deparei-me com um fluxo anormal de veículos vindos do
Luxemburgo, e ao entrar no Grão Ducado, vi o motivo: os franceses
foram atestar os depósitos de combustível, antes do fecho
fronteiriço. Também verifiquei uma afluência anormal nos
supermercados Lidl e Carrefour, em Audun-le-Tiche, anormalidade essa
que agora passa a normal. Como filas de gente à porta, à espera de
vez para entrar.
A
manhã do dia 2, caracteriza-se, pelas novas realidades: filas, que
lembram tempos idos de racionamento, e a obrigatoriedade de carregar
documentos, como se de salvo-condutos se tratassem.
A
tarde foi pautada por começar a delinear planos de trabalho dentro
da actividade musical, tocar um pouco no meu teclado Yamaha, um
pequeno passeio junto ao apartamento, e terminar de assistir ao filme
do Saramago, que na parte inicial tem semelhanças com o que nos está
a acontecer. Ou não fosse o Saramago um excelente observador do
comportamento humano.
Assaltam-me
no dia 2, os pensamentos de medo, que tento não transmitir para
fora. Os medos por mim, pelos meus, as incertezas sobre um futuro se
tornou totalmente imprevisível. Ao medo de contrair a doença,
sobrepõe-se o medo da incapacidade financeira, da insolvência.
Medos alguns que me vêm novamente bater à porta, e que tão bem
conheço. Não fosse o pequeno pé de meia, que garanti desde que me
tornei empregado neste pais, estaria agora em pânico e não com
medo.
Também
nesta tarde, o Primeiro Ministro luxemburguês Xavier Bettel,
anunciou o estado de emergência por 90 dias. Prevêem-se pois, três
meses de paragem, em vez de perto de um mês, quando se acatou a
ordem no dia zero, de tudo parar até dia 29 de Março. Veremos agora
como reagirá o meu patrão, e o estado grão ducal, no que toca aos
ordenados. Mais um medo, uma apreensão a juntar aos outros medos.
Adivinha-se
uma luta interna para conseguir equilíbrios necessários à sanidade
mental, para consumo próprio, mas também para transmissão a
terceiros, bem como a imposição de regras para uma vida tão
saudável quanto possível, em período de quarentena, quando
ironicamente, não se trabalha, a primavera chegou, o céu está
azul, a temperatura amena, mas não se pode (deve) sair de casa.
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