domingo, 5 de abril de 2020

Dia 2, terça-feira, 17 de Março




Depois do embate das medidas anunciadas pelo presidente francês, o dia amanheceu como que suave e ténue, como que se a natureza quisesse brindar-nos com os ares primaveris, para acalento das nossas mágoas. Estava marcado com o meu patrão um encontro pelas 11 horas da manhã a fim de ser autenticado um documento que me permite circular entre os dois países, que a partir do dia 17, passariam a ter controles de fronteira. A partir do dia 17 estou obrigado a exibir um documento emitido pelo Governo do Grão Ducado luxemburguês, onde constam os dados da minha entidade empregadora, os meus dados, e assinaturas com carimbo. Bem como tenho de me fazer acompanhar de um outro documento, este de origem francesa, com a minha identificação, que tem vários campos de escolha sobre o motivo pelo qual ando na rua. Escolhi três motivos, e fiz três exemplares que terei de colocar nos meus pertences, sempre que sair à rua, sob pena de ser multado em 135€. Os motivos são, 1 - por razões de trabalho, 2 - Para compras essenciais ( supermercado e farmácia ) , 3 - Caminhada individual, que tentarei fazer, e também de bicicleta.
Na ida a Esch, deparei-me com um fluxo anormal de veículos vindos do Luxemburgo, e ao entrar no Grão Ducado, vi o motivo: os franceses foram atestar os depósitos de combustível, antes do fecho fronteiriço. Também verifiquei uma afluência anormal nos supermercados Lidl e Carrefour, em Audun-le-Tiche, anormalidade essa que agora passa a normal. Como filas de gente à porta, à espera de vez para entrar.
A manhã do dia 2, caracteriza-se, pelas novas realidades: filas, que lembram tempos idos de racionamento, e a obrigatoriedade de carregar documentos, como se de salvo-condutos se tratassem.
A tarde foi pautada por começar a delinear planos de trabalho dentro da actividade musical, tocar um pouco no meu teclado Yamaha, um pequeno passeio junto ao apartamento, e terminar de assistir ao filme do Saramago, que na parte inicial tem semelhanças com o que nos está a acontecer. Ou não fosse o Saramago um excelente observador do comportamento humano.
Assaltam-me no dia 2, os pensamentos de medo, que tento não transmitir para fora. Os medos por mim, pelos meus, as incertezas sobre um futuro se tornou totalmente imprevisível. Ao medo de contrair a doença, sobrepõe-se o medo da incapacidade financeira, da insolvência. Medos alguns que me vêm novamente bater à porta, e que tão bem conheço. Não fosse o pequeno pé de meia, que garanti desde que me tornei empregado neste pais, estaria agora em pânico e não com medo.
Também nesta tarde, o Primeiro Ministro luxemburguês Xavier Bettel, anunciou o estado de emergência por 90 dias. Prevêem-se pois, três meses de paragem, em vez de perto de um mês, quando se acatou a ordem no dia zero, de tudo parar até dia 29 de Março. Veremos agora como reagirá o meu patrão, e o estado grão ducal, no que toca aos ordenados. Mais um medo, uma apreensão a juntar aos outros medos.
Adivinha-se uma luta interna para conseguir equilíbrios necessários à sanidade mental, para consumo próprio, mas também para transmissão a terceiros, bem como a imposição de regras para uma vida tão saudável quanto possível, em período de quarentena, quando ironicamente, não se trabalha, a primavera chegou, o céu está azul, a temperatura amena, mas não se pode (deve) sair de casa.


Sem comentários:

Enviar um comentário