terça-feira, 7 de abril de 2020

Dia 23, terça-feira, 7 de Abril


Desde que atravessei o longo período de aperto financeiro, e no coração, que durou mais do que uma década, que ganhei uma capacidade que desconhecia em mim, a da resiliência, apesar do meu natural defeito de ser ansioso. Por isso, deduzo que parte da minha tranquilidade possível se deve a essa característica resultante do pedregulho que a vida me colocou no caminho. Saber o meu núcleo duro de afectos se encontra bem, chega-me. Saber que vou tendo tostões para ir comendo e pagando os encargos mensais, tranquiliza-me. O que me proporciona  uma gestão das rotinas diárias, que assumo, gosto, com prazer.
Uma das tarefas da terça-feira, é sair com o carro e aproveito para ir ao supermercado, escolhendo o Lidl, pois o Carrefour apresentava uma fila para cerca de meia hora. Na estrada que vai para Esch, a policia montou um dispositivo aparatoso de controle, e mandam parar todos os carros.
No interior da loja, o natural receio de aproximação entre as pessoas. Ninguém anda aos pares. Os carrinhos dos homens com poucas compras, e os das mulheres até ao cimo. A mulher à minha frente pagou 290 euros de compras.
Comprei entre outros artigos, um frango inteiro, para tentar fazer no forno, com limão.
Arrumadas a compras, faço o segundo papel de saída, e inicio o meu passeio de 11 Km, com 16 graus e céu azul, pelas ruas de Audun, passando pela rua principal, onde se encontram muitos edifícios anteriores à II Grande Guerra. Após pedalar, faço a habitual paragem no rio, que hoje tinha um pato, alheio ao vírus, alheio ao período de Pascoa. Por vezes assalta-nos aquele pensamento, de que os animais não têm preocupações. São apenas, felizes.
Depois de um leve almoço de salmão fumado, queijo e tomatinhos, quando começava a preparar-me para repetir as rotinas da tarde, toca o telefone, e do outro lado, estava o meu patrão, a dizer-me precisar de tratar de uns assuntos no escritório, pelos que tive de reunir a papelada necessária para entrar no Luxemburgo. Quando entrei no carro, o termómetro marcava 28 graus.
Uma sensação estranha a de regressar ao local de trabalho, quase duas semanas depois, como se fosse um clandestino.
Depois dos assuntos tratados, e de algumas trocas de impressões com o patrão, fiquei de regressar na próxima quinta feira, para organizar o caos em que estão os papeis no escritório e regresso a França, onde no mesmo local em que os avistara pela manhã, estava novamente a Policia Aduaneira. O caso continua sério, a França já conta com mais de 10.000 mortos.
Depois de uns grelhados na varanda, acabei o Bohemian. Mais uma lágrima marota retida. Estou um sentimental.

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