Mais
um dia que amanhece azul no céu. As noticias matinais sucedem-se e
repetem-se. Decido modificar radicalmente o dia 4, em relação ao
dia 3: sair de casa. Executar tarefas. Contrariar a letargia.
Trata-se agora de um manual de sobrevivência, ao mesmo tempo que de
repente ficamos com tempo de sobra. Sem prevermos, como canta o Rui
Veloso, todo o tempo do mundo. Proponho-me a juntar o útil ao
agradável, tentando obedecer e contornar ligeiramente as ordens
governamentais. Pelo que peguei no documento obrigatório para quem
sai à rua, escolhendo aquele que diz que tenho de ir a compras
essenciais, meti-me no carro e fui dar a volta às principais ruas de
Audun. Caso a Policia me mandasse parar, diria que precisava de ir à
farmácia, ou a um dos três supermercados da localidade. Terei de ir
fazendo esta voltinha para não descarregar a bateria, pois a
principal oficina de Audun, a da Renault, está fechada... De resto,
as filas na entrada dos supermercados diminuiu, e também na
farmácia. Estamos a caminho da normalidade da anormalidade.
O
cenário das ruas é o previsível, com poucas pessoas e poucos
veículos, um ou outro a fazer a sua caminhada autorizada pelo
estado.
As
duas horas seguintes, passei-as a limpar o carro. Nunca tinha
demorado tanto, nesta tarefa. Afinal tinha a manhã toda. Ficou o
carro limpinho por dentro, e de certo modo o exercício matinal
cumprido.
Pela
primeira vez, desde a "nova ordem" encontro os vizinhos do
rés do chão. A primeira abordagem é de cautela reciproca à
distância conveniente, com troca de informações de como é na
França e em Portugal.
Ficou
combinado um piquenique, no belo e amplo relvado situado aqui atrás
do edifício, e por onde passa o rio Alzette. Será um encontro de
vizinhos, com boa comida, boa bebida, e com musica ao vivo, para
comemorar o fim das restrições, resultante da eliminação ou
controle do vírus, coisa que todos esperamos. Adivinhe-se quem é o
musico!
O
ar primaveril convida a grelhar na varanda, mais uma vantagem imposta
pela ordem vigente, a de tentar tirar o melhor partido das situações,
por mais simples que elas sejam. E fazer de momentos triviais,
momentos tão agradáveis quanto possível. A tarde foi passada entre
algumas tarefas de PC, uma fugaz ida à rua, e a expectativa das
medidas a anunciar por António Costa, respeitantes ao estado de
emergência declarado pelo professor Marcelo. Foi o ponto alto do
dia. Chegado o momento do anuncio, verifico que algumas restrições
foram decalcadas das medidas francesas, mas com uma falha que
considero enorme: a ausência de multas aos transgressores. Penso que
fica um pouco ao critério da autoridade, fazer cumprir a lei, o que
pode levar a dualidade de critérios, excessos, mas também a alguma
tolerância. Sabendo como somos (já os romanos diziam que não nos
governamos, nem nos deixamos governar) prevejo que haverá muita
indisciplina, em contraste com a obediência consciente que vejo
aqui.
Também
no campo económico, algumas medidas são idênticas às daqui. O que
pode permitir que o meu filho continue a exercer o seu negocio
on-line, e assim manter alguma actividade financeira e mental.
Conhecendo as teias burocráticas de Portugal, bem como conhecendo na
pele o que é andar na corda bamba no que toca a gestão de
tesouraria, receio que a ausência de almofadas financeiras numa
grande parte dos comerciantes, prestadores de serviços, pessoal a
recibo verde, contratados a prazo, vai provocar alguns danos, para
não dizer muitos. Esta é a minha visão de momento, esperando
vivamente que exista sensibilidade e rapidez da parte de quem manda,
em atender de pronto à ansiedade daqueles cujo horizonte se fechou,
de repente. Esperemos que não venham a existir baixas, como
aconteceu com a crise de 2008.
A
hora de jantar é agora preenchida com a atenção focada no
telejornal francês, e depois no português. Pois é preciso estar
informado. De certa forma, estamos em guerra.
Antes
de adormecer, mais um avanço no livro “o Guarani”.

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