domingo, 5 de abril de 2020

Dia 4, quinta-feira, 19 de Março


Mais um dia que amanhece azul no céu. As noticias matinais sucedem-se e repetem-se. Decido modificar radicalmente o dia 4, em relação ao dia 3: sair de casa. Executar tarefas. Contrariar a letargia. Trata-se agora de um manual de sobrevivência, ao mesmo tempo que de repente ficamos com tempo de sobra. Sem prevermos, como canta o Rui Veloso, todo o tempo do mundo. Proponho-me a juntar o útil ao agradável, tentando obedecer e contornar ligeiramente as ordens governamentais. Pelo que peguei no documento obrigatório para quem sai à rua, escolhendo aquele que diz que tenho de ir a compras essenciais, meti-me no carro e fui dar a volta às principais ruas de Audun. Caso a Policia me mandasse parar, diria que precisava de ir à farmácia, ou a um dos três supermercados da localidade. Terei de ir fazendo esta voltinha para não descarregar a bateria, pois a principal oficina de Audun, a da Renault, está fechada... De resto, as filas na entrada dos supermercados diminuiu, e também na farmácia. Estamos a caminho da normalidade da anormalidade.
O cenário das ruas é o previsível, com poucas pessoas e poucos veículos, um ou outro a fazer a sua caminhada autorizada pelo estado.
As duas horas seguintes, passei-as a limpar o carro. Nunca tinha demorado tanto, nesta tarefa. Afinal tinha a manhã toda. Ficou o carro limpinho por dentro, e de certo modo o exercício matinal cumprido.
Pela primeira vez, desde a "nova ordem" encontro os vizinhos do rés do chão. A primeira abordagem é de cautela reciproca à distância conveniente, com troca de informações de como é na França e em Portugal.
Ficou combinado um piquenique, no belo e amplo relvado situado aqui atrás do edifício, e por onde passa o rio Alzette. Será um encontro de vizinhos, com boa comida, boa bebida, e com musica ao vivo, para comemorar o fim das restrições, resultante da eliminação ou controle do vírus, coisa que todos esperamos. Adivinhe-se quem é o musico!
O ar primaveril convida a grelhar na varanda, mais uma vantagem imposta pela ordem vigente, a de tentar tirar o melhor partido das situações, por mais simples que elas sejam. E fazer de momentos triviais, momentos tão agradáveis quanto possível. A tarde foi passada entre algumas tarefas de PC, uma fugaz ida à rua, e a expectativa das medidas a anunciar por António Costa, respeitantes ao estado de emergência declarado pelo professor Marcelo. Foi o ponto alto do dia. Chegado o momento do anuncio, verifico que algumas restrições foram decalcadas das medidas francesas, mas com uma falha que considero enorme: a ausência de multas aos transgressores. Penso que fica um pouco ao critério da autoridade, fazer cumprir a lei, o que pode levar a dualidade de critérios, excessos, mas também a alguma tolerância. Sabendo como somos (já os romanos diziam que não nos governamos, nem nos deixamos governar) prevejo que haverá muita indisciplina, em contraste com a obediência consciente que vejo aqui.
Também no campo económico, algumas medidas são idênticas às daqui. O que pode permitir que o meu filho continue a exercer o seu negocio on-line, e assim manter alguma actividade financeira e mental. Conhecendo as teias burocráticas de Portugal, bem como conhecendo na pele o que é andar na corda bamba no que toca a gestão de tesouraria, receio que a ausência de almofadas financeiras numa grande parte dos comerciantes, prestadores de serviços, pessoal a recibo verde, contratados a prazo, vai provocar alguns danos, para não dizer muitos. Esta é a minha visão de momento, esperando vivamente que exista sensibilidade e rapidez da parte de quem manda, em atender de pronto à ansiedade daqueles cujo horizonte se fechou, de repente. Esperemos que não venham a existir baixas, como aconteceu com a crise de 2008.
A hora de jantar é agora preenchida com a atenção focada no telejornal francês, e depois no português. Pois é preciso estar informado. De certa forma, estamos em guerra.
Antes de adormecer, mais um avanço no livro “o Guarani”.


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