domingo, 5 de abril de 2020

Dia 7, domingo, 22 de Março


A clássica conclusão de que só damos valor às coisas quando as perdemos, nunca fez tanto sentido como neste momento. Durante os últimos anos salvo raríssimas excepções, a minha rotina dos dias de fim de semana, para a maioria das pessoas, era a de ir tocar à sexta-feira à noite, no sábado, pela manhã, ir levar o material da musica ao restaurante, regressar a casa, com paragem no supermercado, na maior parte das vezes, almoçar, descansar, para depois enfrentar as famosas noites de sábado à noite, por vezes com mais de duzentas pessoas, suportando o barulho dos clientes, dos talheres, os gritos do empregados, os gritos da cozinha, e muitas vezes com um encontrão no microfone. Depois havia o domingo. Tocar ao domingo, por vezes já era um pouco no limite da garganta, dado o cansaço evidente. Sem peneiras, digo que poucos aguentam fins de semana assim, mesmo que bem mais novos que eu.
E de repente tudo isso acabou.
Hoje é domingo, e aqui estou, como estive ontem, como estive antes de ontem... Todo aquele bulício, todas as dificuldades físicas que ia superando, terminaram abruptamente, sem apelo nem agravo. Que estranha a sensação de acordar no domingo, sem a ressaca das actuações, e com mais um dia pela frente, igual aos anteriores.
O doido clima local apresentou, sol, vento e 7 graus. Oiço as noticias da praxe, preparo a documentação necessária à saída precária, e inicio um percurso de bicicleta que não chegou aos 4 quilómetros, mas serviu para exercitar as pernas, principalmente contra o vento, e apanhar ar, que segundo dizem, não contamina.
Foi o resto da manhã ocupado em dar uma volta à pasta dos documentos que se têm de guardar, uma tarefa que de certo modo é o espelho administrativo dos últimos anos: as facturas de artigos que fui adquirindo, onde constato que comprei a minha bicicleta em 6.04.2016, os recibos de vencimento, o meu contrato de trabalho, as análises clínicas, e também aqueles papéis que perderam validade de interesse, que vão directamente para o lixo.
Acompanhei alguns momentos deste domingo com as obras de Chopin. Afinal, faz todo o sentido, dado que o nome da minha rua é, Frédéric Chopin.
A tarde foi preenchida com uma bela sesta, coisa que já não fazia desde os tempos de "liberdade".
No final do dia mais um avanço no Padrinho I, e conclusão do Guarani. Gostei, atendendo à época em que foi escrito.


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