domingo, 5 de abril de 2020

Dia 6, sábado, 21 de Março



Como se não bastasse o flagelo que virou a vida de todos de pernas para o ar, dos 17 graus do 5o dia, passou-se para 3 graus matinais, com queda de neve, à mistura. A rotina terá de ser alterada no que diz respeito às saídas de casa. Arrisco a sair com o carro, para a manutenção de bateria e para ver como está Audan. Tenho o cuidado de levar o meu documento, com data do dia, em que declaro ter saído de casa para comprar bens essenciais, e para reforçar a credibilidade, invento uma lista de medicamentos, que coloco na carteira.
O cenário é típico dos filmes que ficção: ruas desertas, adivinhando-se o aglomerado de gente, guardando a devida distância, à porta dos supermercados. Curiosamente, na farmácia não havia filas. No Carrefour uns 200 metros, e à chuva. Dou duas voltas pelas ruas principais da vila, e recolho à base. Policia, nem vê-la.
Faço uma pequena gravação com a minha velha Gibson, a tocar o solo do Malta à Porta em cima da versão que o Tim, dos Xutos fez, no CD de tributo ao Rock de Almada "à sombra do Cristo Rei". Publiquei no Facebook, a ver quantos saudosistas reagem.
Uns quantos ainda reagiram, e curiosamente, um almadense, baterista, que vive no Luxemburgo, e o guitarrista dos Gift.
A chuva obrigou-me a fazer os 5 quilómetros matinais, na bicicleta de ginásio que tenho aqui atrás de mim. A cada nova noticia sobre a pandemia, sinto que cada vez se torna mais difícil fazer uma vida "normal". Cada actualização aperta o cerco, desmorona mais um bocado, destrói mais um pilar de defesa, com a agravante de não haver uma meta, um prazo que nos diga: isto acaba no dia tal, e a partir desse dia tudo volta ao normal.
Sabemos que não vai ser assim, e isso assusta-me. Por mim, e por todos aqueles que me são queridos.
Depois de almoço, parou de chover, embora a temperatura não passasse dos 7 graus. Ocupei a tarde com mais uns toques na viola, a fazer flyers para o restaurante, e atrevi-me a fazer perto de 4 quilómetros a pedalar na rua, apesar do frio e vento. Quase no final do exercício parei para filmar a área comercial de Audun praticamente deserta, e eis que aparece um carro da "Gendarmerie", a GNR francesa. Notei que me observavam, e creio que se ali tivesse permanecido, me teriam interrogado. Safei-me, recomeçando a pedalar, e rumando ao meu bairro, com eles atrás de mim, que seguiram o seu caminho quando me viram virar para a minha rua, que não tem saída. De futuro, não vou parar para fotos em espaços abertos.
O jantar foi bacalhau no forno, regado por um Evel tinto, e um Licor Beirão, para mais um bocado do Padrinho I, e rever o grande Al Pacino, com cara de miúdo...
Antes de ir para a cama, as novidades sobre a propagação do vírus, deixam-me cada vez mais assustado e apreensivo. Não sei distinguir se é realismo ou pessimismo da minha parte, mas saber que cada vez a pandemia se alastra mais, leva-me aos milhares de momentos, depois de 2011, em que sozinho, morria um pouco, aos bocadinhos, perante a impotência de resolver os problemas financeiros da loja.

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