Como
se não bastasse o flagelo que virou a vida de todos de pernas para o
ar, dos 17 graus do 5o dia, passou-se para 3 graus matinais, com
queda de neve, à mistura. A rotina terá de ser alterada no que diz
respeito às saídas de casa. Arrisco a sair com o carro, para a
manutenção de bateria e para ver como está Audan. Tenho o cuidado
de levar o meu documento, com data do dia, em que declaro ter saído de casa para comprar bens essenciais, e para reforçar a
credibilidade, invento uma lista de medicamentos, que coloco na
carteira.
O
cenário é típico dos filmes que ficção: ruas desertas,
adivinhando-se o aglomerado de gente, guardando a devida distância,
à porta dos supermercados. Curiosamente, na farmácia não havia
filas. No Carrefour uns 200 metros, e à chuva. Dou duas voltas pelas
ruas principais da vila, e recolho à base. Policia, nem vê-la.
Faço
uma pequena gravação com a minha velha Gibson, a tocar o solo do
Malta à Porta em cima da versão que o Tim, dos Xutos fez, no CD de
tributo ao Rock de Almada "à sombra do Cristo Rei".
Publiquei no Facebook, a ver quantos saudosistas reagem.
Uns
quantos ainda reagiram, e curiosamente, um almadense, baterista, que
vive no Luxemburgo, e o guitarrista dos Gift.
A
chuva obrigou-me a fazer os 5 quilómetros matinais, na bicicleta de
ginásio que tenho aqui atrás de mim. A cada nova noticia sobre a
pandemia, sinto que cada vez se torna mais difícil fazer uma vida
"normal". Cada actualização aperta o cerco, desmorona
mais um bocado, destrói mais um pilar de defesa, com a agravante de
não haver uma meta, um prazo que nos diga: isto acaba no dia tal, e
a partir desse dia tudo volta ao normal.
Sabemos
que não vai ser assim, e isso assusta-me. Por mim, e por todos
aqueles que me são queridos.
Depois
de almoço, parou de chover, embora a temperatura não passasse dos 7
graus. Ocupei a tarde com mais uns toques na viola, a fazer flyers
para o restaurante, e atrevi-me a fazer perto de 4 quilómetros a
pedalar na rua, apesar do frio e vento. Quase no final do exercício
parei para filmar a área comercial de Audun praticamente deserta, e
eis que aparece um carro da "Gendarmerie", a GNR francesa.
Notei que me observavam, e creio que se ali tivesse permanecido, me
teriam interrogado. Safei-me, recomeçando a pedalar, e rumando ao
meu bairro, com eles atrás de mim, que seguiram o seu caminho quando
me viram virar para a minha rua, que não tem saída. De futuro, não
vou parar para fotos em espaços abertos.
O
jantar foi bacalhau no forno, regado por um Evel tinto, e um Licor
Beirão, para mais um bocado do Padrinho I, e rever o grande Al
Pacino, com cara de miúdo...
Antes
de ir para a cama, as novidades sobre a propagação do vírus,
deixam-me cada vez mais assustado e apreensivo. Não sei distinguir se
é realismo ou pessimismo da minha parte, mas saber que cada vez a
pandemia se alastra mais, leva-me aos milhares de momentos, depois de
2011, em que sozinho, morria um pouco, aos bocadinhos, perante a
impotência de resolver os problemas financeiros da loja.

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