domingo, 5 de abril de 2020

Dia 12, sexta-feira, 27 de Março


Espero que a sucessão de dias aparentemente iguais não venha a confirmar as palavras do Sérgio Godinho, "hoje é o primeiro dia do resto da tua vida". Com efeito estou na segunda sexta-feira em que não carrego o equipamento da musica, para ir tocar a Mondorf, e até porque o restaurante fechou em definitivo, não por causa do vírus, mas por já estar programado. Se eles irão abrir outro espaço, e quando o farão, desconheço. E se o fizerem, saber se existe espaço para mim, são tudo pontos de interrogação a juntar aos outros, enormes pontos de interrogação sobre o futuro. Por enquanto, limito-me a viver o dia a dia, e tomar as precauções para não ser contagiado.
O dia nasceu igual, com o sol, a temperatura baixa, mas suportável, e algum vento. Inicio a rotina, mas com a introdução de uma diferença que muito prazer me deu. Aproveitando o tempo dedicado à bicicleta matinal, fiz uma paragem perto de onde aqui perto corre o rio Alzette e fiz umas quantas fotos, as primeiras desde que tudo isto começou. Findo o passeio, dediquei-me ao prazer de editar as fotos, que é uma tarefa que me dá tanto gozo como o acto de fotografar. Editar as fotos passa por as endireitar, se necessário, e evidenciar aquilo que na foto me parece ser mais relevante, e por vezes obtenho resultados excelente, quando de inicio foto virgem não tinha nada de promissor. Trata-se de melhorar a foto e não de a alterar ou modificar. Mas não deixa de ser manipulação.
Recebo um telefonema do meu melhor amigo. Talvez o único que tenho digno desse estatuto. Sabe bem saber que se importam connosco. Sabe bem que nos perguntem como estamos, tal como sabe bem, saber os outros bem. São laços e afectos que nestes tempos conturbados e atendendo à distância que nos separa, ganham uma dimensão superior.
Existe uma frase assim:
A verdadeira afeição, à longa distância se prova”
Em tempos, creio que desde o outono passado, decidi começar a escrever tudo o que me recordo da minha vida. Era principalmente aos sábados de manhã, que dedicava algumas palavras a essa auto biografia. De tão pouco que escrevia, tinham chegado os dias presentes, e as memorias ainda iam nos meus cinco anos de idade. Com o tempo que vou tendo agora, estou a dar um avanço maior a esses escritos. Veremos se o tempo de reclusão vai ser de tal forma prolongado, que me vai permitir acaba-los.
O resto do dia andou em volta do filme Padrinho II, que acabei de ver, e uma feijoada de marisco, aproveitando a feijoada de choco da noite anterior. Que nos tempos que correm temos de fazer render a comidinha.
Fui-me deitar com noticias tristes: o aumento de casos na Alemanha. Mais um recorde de mortes na Itália. Na França morre uma pessoa de 4 em 4 minutos. Torna-se difícil levantar o ânimo. Cada vez se torna mais presente a determinação de que o importante agora, é sobreviver.


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